Dez anos de Iminente. Quatro dias de festival. Um só dia para este escriba da Altamont.
O TGV nunca passou pela Escola Secundária Afonso Domingues, tendo deixado-a perdida no tempo e deslocada da realidade. Na verdade, retiro o que disse. Se calhar, só a meteu mais dentro do dia-a-dia do que muito posto turístico por onde passamos com frequência. Um verdadeiro lembrete de uma Lisboa esquecida, em nome de um progresso que nunca veio, mas que agora encontrou uma casa temporária (onde muitos também encontraram uma casa nestes anos) com a chegada do muito desejado, sempre presciente, e nunca aborrecido Iminente – um festival que decidiu celebrar o seu décimo aniversário entre as ruas esquecidas de Marvila com quatro dias absolutamente recheados de uma programação rica, ativa e (em vários aspetos e mais alguns) ruidosa.
Não tive a sorte de ter estado lá do princípio ao fim do festival, nem sequer do princípio ao fim do próprio dia em que fui. Tentei ir o mais cedo possível para me banhar no sol intenso e no punk caloroso dos Overcrooks, com sabor a hardcore, que começou cedo e sacudiu o cabedal dos poucos que já se juntavam no palco Court. De coração nas mãos, e consciência política bem afiada, os Overcrooks não estavam para brincadeiras. Quem não os viu, tivesse visto. Eles estavam seguros, pesados e com o espírito certo. Não sei se chegaram a andar de skate, mas, deram um bom kickflip a qualquer um dos outros artistas do dia. E não, eu também não andei. Aliás, a minha única experiência com este tipo de quatro rodas vem dos velhinhos jogos do Tony Hawk ou do primeiro Skate. Triste? Podem crer.
Mas vá, vamos lá embora. Não há tempo a perder. Há um documentário para ver chamado Dead City Punx sobre os recentes e já míticos Dead City, uma banda de hardcore que parece ter incendiado metade de Los Angeles enquanto mostrava o dedo do meio à outra metade. O documentário em si é algo fascinante. Tem uma fórmula bastante pacata enquanto documentário,uns talking heads aqui, umas imagens acolá, mas depois é um caos para lá de absurdo no conteúdo. Aliás, eu próprio fiquei com medo que todos os fãs dos Dead City fossem entrar pela zona SOUNDSYSTEM adentro e começassem a queimar tudo o que vissem. Há bandas que se autointitulam perigosas. E, depois, há os Dead City. Se puderem, vejam o filme e bebam a cada história mirabolante que for contada. Ficarão bêbados passado nove minutos. Já agora, uma verdadeira vénia ao membro da banda que tinha uma t-shirt dos Deep Wound numa foto de arquivo que apareceu durante três segundos. Ele nunca irá ler isto e eu aceito essa derrota.
Pausa para o verdadeiro desafio da noite. Encontrar um tasco em Marvila que estivesse a servir comida. Ponto negativo? Falhei redondamento no objetivo. Ponto positivo? Fui bebendo cervejas nos que estavam abertos. Ponto negativo? Um dos quais parecia estar ao serviço só como verdadeira provcação à ASAE. Ponto positivo? Num dos outros, alguém começou a falar da Lena D’Água sem saber que ela iria pisar o palco do Iminente.
Ok, de volta ao recinto e chegou a vez de perder mais um bocado de audição com os bbb hairdryer. Vocês sabem que a banda é incrível, a banda sabe que é incrível. Não há muito a acrescentar. Partiram tudo, disseram o que tinham a dizer (e bem dito) e foram usar um secador mais próximo depois de terem ficado completamente encharcados com todo o power que deixaram em palco. Sim, estou a escrever “secador” porque eles têm “hairdryer” no nome. Estamos nos píncaros da comédia, caríssimos. Nos píncaros.
Ou, se calhar, eles só precisavam de uma garrafa de água. Ou talvez da Lena D’Água, que encheu o palco Court com montes de pessoas, de coração aberto, para ouvir todos os temas de uma carreira que já vai (felizmente) tão extensa quanto a noite. Faz-se acompanhar do Vicente nas teclas e da Rita na guitarra. Eles dão um cobertor simpático e constante às várias fases da carreira da Lena – e o público canta “Demagogia” sempre que o amor os quiser. Um concerto delicioso mas que poderia ter tido um empurrão no volume para maior efeito nostálgico.
Ainda há espaço para os Bas Rotten se chafurdarem nas cinzas com que os bbb hairdryer deixaram o espaço CANTINA, com a curadoria da Duro de Roer. E, infelizmente, o dia foi cansativo, e fiquei completamente de rastos e falhei o que deve ter sido um concerto para lá de único dos Dead City. Se calhar, fiquei só borrado de medo. Espero que tenha sido incrível e com uma multidão a roçar o tresloucado num estado psiquiátrico. Bem, talvez não tão louco como o que vi no documentário. Até porque é difícil ser-se uma banda chamada Dead City num festival que consegue ensinar uma cidade como Lisboa a abrir os olhos.
Fotografias gentilmente cedidas pela organização.
































