Otimistas céticos ou resignados? A celebrar 20 anos de banda, os Glockenwise pensam o futuro num álbum que os cimenta como uma banda indispensável do panorama nacional.
Numa primeira escuta, Vale Tudo Para Chegar a Algum Lado soará ao volume dois de Gótico Português. De facto, em termos melódicos e instrumentais, o novo trabalho mantém o ambiente etéreo e contemplativo, com guitarras reverberantes e lânguidas a acompanhar uma bateria bem marcada e vocais espectrais. Talvez apenas “Vai Dar”, o single de apresentação, fuja a esta primeira impressão, destacando-se com a sua introdução alargada que inclui o saxofone assombrado de Pedro Alves Sousa. Sabemos que sequelas não são fáceis, sobretudo quando há que suceder a um disco como Gótico Português, maduro e detentor de uma sonoridade distinta. Seria assim tão mau se a nossa banda de Barcelos favorita nos tivesse dado “apenas” mais daquele álbum de que tanto gostámos e continuamos a gostar? Claro que não. Ainda assim, pensamos que desvalorizar o novo disco dos Glockenwise por ser “mais do mesmo” seria um enorme erro.
Musicalmente, Vale Tudo Para Chegar a Algum Lado parte da fundação bem estruturada do seu antecessor e constrói sobre ela, aprimorando-a e esticando os limites para testar até onde é possível ir. Vemos isso na já mencionada introdução de “Vai Dar” e também na longa e introspetiva bridge que toma conta da canção que dá nome ao disco. É fácil ouvir uma sonoridade muito própria, demonstrativa da maturidade da banda que celebra este ano 20 anos de carreira, mas é também notório, à medida que se vai entrando nas canções (e este é um disco que ganha muito com uma escuta atenta e repetida), um crescimento e uma exploração. O ponto forte do álbum está, no entanto, nas letras.
A temática, tal como a banda explica no texto que acompanha o álbum, é o futuro: “Condenados a viver na sala de espera, queremos indagar sobre o futuro, sobre as expectativas coletivas e sobre a agência – ou impotência – individual na sua formação.”. Ao longo das nove canções, Nuno Rodrigues, vocalista e letrista, adota diferentes perspetivas sobre este assunto. Se em “Vale tudo para chegar a algum lado” é pessimista e clama pelo fim que, afinal, não surpreenderia ninguém dado o estado a que isto chegou, em “Azar”, com o seu refrão contagiante, e em “Vai dar”, pratica um certo otimismo cético ou resignado que se pode confundir com niilismo – “Eu quero-me render às evidências/ Era mais fácil que o otimismo/ (…) E até aposto/ Que há mais quem queira ver a vida assim”; “Cancelada a minha vida/ Entrego-me à cantiga/ E à macia convicção de que/ Vai dar”. “Lua”, canção curta e que facilmente imaginamos a gerar um moche ao vivo, purga “As dores de ser grande” enquanto “Tudo o que eu posso”, no lado oposto do espectro, calma e acústica, apresenta uma solução para elas – “Tudo o que eu posso/ É gostar de alguém”. “Intenção” surge cosida com a canção anterior e fecha o disco de forma perfeita, concentrando num só poema todo o questionamento, a impotência, e a indecisão abordados nas canções anteriores. “Passas mais um dia morto/ Tens tudo orientado/ Mas não é para agora”; “E passas sempre o dia a correr/ A vida a perder-se/ Só intenção”. O futuro, o que quer que ele seja, parece fugir-lhes (fugir-nos). Fizemos tudo direitinho, onde está o tal futuro que nos prometeram e porque é que parece que ele já não existe?
Já em 1979, José Mário Branco se queixava do futuro adiado e do cancelamento de toda uma geração, no imortal e cada vez mais atual texto FMI (“cabrões de vindouros, sempre a merda do futuro, e eu que me quilhe! (…) Eu sou parvo, ou quê? Quero ser feliz, porra! Quero ser feliz! Agora! Que se foda o futuro! Que se foda o progresso!”). Em 2026, os Glockenwise parecem partilhar muitas dessas inquietações. Serão preocupações próprias da idade? Afinal, o autor de FMI tinha 37 anos quando o escreveu e a idade de Nuno Rodrigues não andará muito longe dessa. Ou será a história a repetir-se e o mesmo sistema a falhar a gerações diferentes? Independentemente da razão (embora cada vez mais nos pareça que será a segunda), a verdade é que esse estado de ansiedade e incerteza nos deu, há quase 50 anos, uma das mais emblemáticas obras de José Mário Branco, provavelmente porque tantas pessoas se reviram nas palavras, no desespero, na indignação e na raiva. Vale Tudo Para Chegar a Algum Lado tem, em 2026, o mesmo efeito. Nuno Rodrigues purga por nós toda a impotência que sentimos ao pensar no estado do mundo, cristalizando na perfeição um sentimento geracional. Assim nasce um clássico.