Terceiro e penúltimo dia do festival. Concertos em destaque: Sérgio & Os Assessores, Ryan
Davis & The Roadhouse Band, Terraplana, Benjamin Clementine e M.I.A.
Olá, Porto! Quer dizer, Paredes de Coura.
Isto é o engano recorrente que muitos dos artistas que passam pelo Coura cometem. Mas se há pessoa que sabe onde está, é o portuense Sérgio Godinho que aqui pisou o palco Vodafone, pela primeira vez, com os seus Assessores e amigos numa celebração da sua vasta discografia, do sentimento de Abril e da própria música portuguesa numa atuação capaz de comover a pessoa no lado mais íngreme da colina com vista para o palco. Talvez tenha sido eu, talvez não tenha. Talvez tenha sido o primeiro dia do resto da minha vida, talvez não tenha. Mas foi, certamente, um começo mais do que sentimental para este terceiro dia. Numa mão, um cravo. Na outra, um copo com vinho tinto para fazer um brinde à estreia de Sérgio Godinho no Paredes de Coura!
Seguimos para o palco secundário, onde corações partidos já sangram ao som de Ryan Davis & the Roadhouse Band. E eu meto o meu chapéu metafórico de cowboy e fico colado à grade, completamente agarrado (que nem um cowboy junkie) às música extensas e encantadoras dos senhores de Kentucky, norte-americanos donos desse som Americana, onde palavras com mais pronúncia e guitarras com mais alma se juntam para criar um serão irresístivel onde nem há tempo para a banda tocar o alinhamento completo. Pelo menos, foi assim que pareceu, quando acabaram o concerto surpreendidos por não haver espaço para uma última música. Em defesa do relógio, as músicas têm mesmo uma duração pouco amigável quando se quer espremer mais uma. Em defesa de Ryan Davis & the Roadhouse Band, eles têm músicas como “Learn 2 Re-Luv”. Escolham o vosso lado, mas pensem que o tempo nunca fica do vosso.
Vamos continuar melancólicos, mas agora com os pés descolados do chão e sem as poeiras de um faroeste longínquo. A bússola aponta para algo muito mais etéreo e com um voo garantido. Não se preocupem, não vão perder os vossos sapatos de vista pois vamos até ao Brasil, com um certo nevoeiro vindo do Reino Unido, para uma dose bem generosa de shoegaze de Curitiba. Para os mais corajosos, a opção de fechar os olhos e imaginar que se estava no final dos anos 80 era possível. Houve uma razão pela qual os Terraplana tocaram duas vezes no festival, a primeira à sombra de uma Vodafone Music Session, e essa razão esteve ao ouvido de todos. Se me perguntarem, fizeram jus não só ao género como ao próprio nome. As subidas e descidas em Paredes de Coura nunca são fáceis, portanto agradeço aos Terraplana por terem terraplanado um bocado o recinto.
Com o terreno nivelado, torna-se mais fácil transportar o piano de Benjamin Clementine até ao centro do palco Vodafone. Clementine tem uma certa suavidade no visual, na voz, na maneira como toca, na forma como atira cada palavra cá para fora, que quase nos esquecemos que estamos a ver um concerto num recinto gigante. Às tantas, podíamos só estar num bar antiquado, com as paredes a cheirarem a uísque e fumo de charuto, enquanto um senhor
impecavelmente vestido nos entregava de bandeja uma série de músicas capazes de nos fazer relembrar o porquê de termos ido parar ao bar, e de já estarmos bastante enfrascados, enquanto pensamos no vazio recorrente de cada dia. Desculpem lá se viajei um pouco mas, por momentos, estive mesmo nesse bar.
Para ver M.I.A, tambéme estive num bar. Infelizmente, não foi aquele establecimento imaginário com Benjamin Clementine, mas sim uma das zonas VIP do festival onde tive a grande sorte de conseguir uns cocktails bastante saborosos. E esses cocktails foram os verdadeiros heróis pois permitiram que sobrevivesse a M.I.A sem nenhum arranhão (isso ficaria guardado para o último dia). Qualquer artista que comece um concerto com um aviso como o que M.I.A usou é motivo mais do que suficiente para tirar uma sobrancelha do sítio. “Este artista é muito perigoso, veja por sua conta e risco.” Poupem-me. A partir daí, nada me conseguiu convencer. E saber do vazio que são as convicções recentes de M.I.A também não ajudou à causa. Vou só pensar no bar do Benjamin e esperar ver lá o Sérgio para lhe pagar mais um copo de vinho.
Fotografias de Hugo Lima, gentilmente cedidas pela organização.































