Apesar dos problemas técnicos, os Cortada estrearam na Musa de Marvila uma colaboração com a violinista Adriana João e aqueceram a primeira noite de agosto com distorção elétrica.
Embora já se sintam na cidade os efeitos do êxodo para sul que Agosto invariavelmente traz, a programação da “Casa Andante”, a residência da Cuca Monga na Musa de Marvila, não tirou férias, para nosso proveito e gáudio, tendo reservado para a primeira noite de Agosto um apetecível programa para levar até os mais resistentes a deixar os seus lares citadinos para aproveitarem uma noite de brisa estival e rock. Os anfitriões da noite seriam Cortada, banda de Lisboa com disco lançado no ano passado e que tem dedicado o seu 2026 a mostrá-lo, um pouco por toda a parte.
O que esperar de um concerto de Cortada? Quem ouça o disco não terá dificuldade em imaginar concertos suados em salas fechadas, com guitarras distorcidas, uma bateria incansável e refrões cuspidos com uma mistura entre urgência e ironia. Na crítica que podem encontrar neste mesmo site pode ler-se: “embora o registo seja de estúdio, Gānbēi (干杯) consegue o feito de transportar a fricção e o suor do palco para disco”; e é isto mesmo, com Cortada, what you hear is what you get.
O concerto na Musa despertou ainda mais a nossa curiosidade pela presença de uma convidada especial, Adriana João, artista multi-disciplinar que emprestaria o seu violino improvisado para ajudar a construir a parede sonora da música dos Cortada.
Foi precisamente o computador de Adriana que gerou o primeiro percalço, adiando uns minutos o início do espetáculo e, a partir daí, não se pode dizer que as coisas tenham melhorado muito. O concerto começou com todos os ingredientes que esperávamos encontrar – Dusmond, Daniel, Lourenço e Bernardo, e, claro, Adriana, não se apoquentaram e atacaram o seu repertório com a intensidade prevista. “GP de Everywhere”, “Cosplay de Straight edge” (que é nova mas que já tínhamos ouvido), e “Cortada” foram tocadas com vontade mas não pudemos deixar de sentir que as condições acústicas da sala não favoreciam o som cáustico da banda, fazendo com que a força das guitarras e das vozes se perdesse e prevalecesse a pujança da secção rítmica. Foi também uma pena que o violino de Adriana não se tenha conseguido destacar no meio dos restantes instrumentos, deixando-nos com muita vontade de ouvir esta ensamble numa sala mais apropriada. No meio destes problemas, mais um, a guitarra de Dusmond deixou de soar e, apesar do esforço heroico de troubleshooting realizado em palco e durante uma canção (pausa para lembrar o momento engraçado em que Dusmond disse ao microfone “alguém tem uma navalha?” para que pudesse cortar a braçadeira de um cabo), esta não voltou à vida.
Sem desanimar, o frontman mandou seguir o concerto (“fico sem guitarra”) e a banda ainda tinha mais algumas canções, como “1234”, para fazer o público mexer-se e para testar a sorte ao ver que mais problemas o universo lhes conseguiria atirar. Não notámos mais nenhum mas, no fim, em frustração roqueira, Dusmond atirou com a guitarra que o traiu contra o chão. Talvez tivesse arranjo mas, assim sendo, fica a imagem da aura de estrela de rock.
As estrelas não estiveram com os Cortada no passado sábado, não lhes tendo dado a oportunidade de mostrar fielmente aquilo que nós sabemos que são capazes de fazer. Venham então mais concertos, de preferência suados e em salas fechadas, com mais colaborações fora da caixa e mais canções novas. Até lá, decretamos: até as estrelas de rock merecem férias.
Fotografias por Gonçalo Nogueira
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