Throwness e Vengeful Fate levaram à Bota os seus discos novos e a certeza que o subsolo nacional está cheio de metais pesados bem valiosos!
assombro
nome masculino
- Grande pasmo ou espanto.
- Susto, terror.
- Maravilha, portento.
“assombro”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/pt-pt/assombro.
Assombro. Há mais de duas semanas (sim, estou assim tão atrasado) que esta palavra não me sai da cabeça. Entre o enorme Pasmo sentido no Vortex há cerca de um ano e a Maravilha vivida nesta tórrida noite de quinta-feira no Bota, tem havido também, e infelizmente, momentos de Susto, Terror e ansiedade que nada têm a ver com a música e que, por essa razão, não explorarei nas próximas linhas.
O encanto e o abanão da música, como a tricotada pelos Throwness ajudam, no entanto, a atravessar esses negrumes trazidos pela vida. Aliás, e tal como especulei nesse nosso primeiro encontro, as composições do quarteto parecem ser relatos dessas vivências e desses processos de confronto com a fragilidade do ser. Durante este período, a banda lançou Marrow Part II: A Fire Through The Ether (maio de 2026) que tem passado incessantemente pelos meus headphones. Estava, portanto, a transbordar de vontade de os apanhar novamente ao vivo, de ver como crescem os temas do disco ao vivo e de voltar a sentir os arrepios transmitidos pelas descargas sónicas. Foi tudo o que esperava e ainda mais. Há noites assim! Felizmente!
As etiquetas Atmospheric Sludge e Post-Metal podem ajudar um pouco para voltar a descrever o som dos Throwness, mas eu sinto que não chegam! Será como experimentar uma receita apenas com a lista de ingredientes, sem instruções de procedimentos e principalmente sem qualquer tipo de pistas para a utilização dos condimentos. A música é lenta e arrastada sobretudo nos momentos de falsa acalmia, que me parecem servirem de rituais de reflexão e de preparação para a próxima batalha, para a próxima aceleração, para a próxima descarga. E que descarga, e que descargas! Tal como as vozes (Kevin e Micas), as guitarras (Kevin e Tiago) trabalham em harmonia e tão depressa se apoiam na segurança do baixo da Micas como o catapultam para doideiras sónicas de encantar. O caos é apenas aparente, está tudo ligado e para isso muito contribui a figura discreta e pensativa do João atrás dos comandos … e da bateria. Fabuloso!
Conheci os Vengeful Fate no cada vez mais inevitável ninho da independência musical que se tem tornado o Vortex. O trio da Póvoa lançou igualmente um disco entre os dois concertos Low Blow (abril de 2026) e as semelhanças com os Throwness prosseguem com a pureza e intensidade na entrega e com o peso que sentimos nos ossos. As diferenças surgem sobretudo na abordagem sónica direta dos primeiros. Os Vengeful Fate trazem-nos uma síntese muito atual de metal core com o (infelizmente, porque demasiado simplificado, mal reputado) nu metal. Mas, não se enganem, não há aqui lugar para trejeitos tolos e desnecessários. Estes moços são sérios e tocam a sério. Há talento e técnica de sobra, mas não há cá espaço para rodriguinhos … o golpe é baixo (desculpem o tocadilho com o título do disco) e seco … straight to the fucking point!
Fotografias por Rui Gato



























