Os Wilco serão sempre uma daquelas bandas que se ouvirá com agrado – e que a cada novo disco soarão bem, porque são uma banda “certinha”, que raramente faz um mau disco e nunca um péssimo.
Talvez o facto de se considerar que passam actualmente por um período de menor fulgor se deva a duas coisas: a primeira é um eventual cansaço que pode haver da banda (afinal, eles já cá andam desde os anos 90, e não são o tipo de banda que cria polémicas mediáticas – salvo raras excepções – ou campanhas de promoção megalómanas para enfiar o disco em tudo quanto é sítio); a segunda pode ser qualquer comparação que se faça com Yankee Hotel Foxtrot (2001), que considero a obra-prima da banda, não só pela enorme qualidade do disco mas por tudo o que o rodeou, desde logo o contexto temporal em que é editado, no pós-11 de Setembro e numa altura em que canções melancolicamente belas (como “Jesus, etc”, por exemplo) e quase premonitórias do que aí vinha ( “Ashes of American Flags”) – foram escritas e gravadas bem antes do acontecimento que desolou a América e mudou o Mundo – eram um consolo bonito e possível para todos nós.
As comparações com uma obra-prima são sempre difíceis; e não foram raras as bandas que ficaram reféns do seu disco excepcional, aquele que elevou tão alto a bitola que os que se lhe seguiram, apesar de bons, foram sempre encarados como “menores”. O tempo tratará de trazer uma avaliação mais racional e distanciada do legado que os Wilco nos deixaram no pós-Yankee Hotel Foxtrot; e estou certo que, por exemplo, Star Wars, o álbum que lançaram o ano passado, será apreciado quer pelos mais críticos quer pelos que pura e simplesmente não se interessaram por ele. Não por acaso, usemos antes as palavras do próprio guitarrista e vocalista da banda, Jeff Tweedy, que explicou a campanha de promoção e venda desse disco (que esteve disponível, durante algum tempo, para download gratuito na página oficial dos Wilco) em entrevista recente:
“Acho que há muitas expectativas que se perdem pelo facto de sermos uma banda há muito tempo e termos lançado muitos discos. Tudo o que envolveu o lançamento do álbum, a maneira como foi embalado, tudo foi realmente um esforço para tentar subverter as expectativas das pessoas e para tentar que estas dêem atenção à banda, por forma a gerar uma discussão ou um diálogo sobre o disco”.
É quase como se Jeff Tweedy estivesse a querer recordar-nos de que os Wilco estão aqui e para ficar: e que melhor maneira de acentuar a mensagem do que lançar novo álbum um ano depois do anterior (coisa que só por uma vez tinham feito na carreira, que já dura há 21 anos)?
Schmilco, nome do álbum editado no passado mês de Setembro, é mais um bom disco na carreira dos Wilco, coisa que não é grande novidade. Menos eléctrico, cheio e com risco diria até “rock” do que o anterior, volta a recordar-nos os Wilco de outros tempos, a meio caminho entre as baladas de indiscutível bom gosto e o country-rock mais vitaminado mas sempre delicado.
Com mais espaço dado ao lado cançonetista e à voz de Jeff Tweedy – que aqui se volta a ouvir com clareza, como bom herdeiro da tradição da canção americana – não faltam malhas óptimas para ouvir neste Outono meio-quente-meio-frio, preferencialmente numa qualquer estrada nacional (que com boa dose de imaginação nos recorde a boa, deserta, interminável e poeirenta estrada americana de outros tempos): oiça-se a inicial “Normal American Kids” (bem sarcástica e pertinente num momento em que a diferença é olhada com crescente desconfiança), o single “If I Ever Was a Child” e a mais dinâmica mas profundamente bela “Cry All Day” (não é de fazer chorar as pedras da calçada, não temam).
A somar a isso, os bons momentos disruptivos a que sempre nos habituaram também cá continuam presentes, em temas como “Common Sense”, “Quarters” e “Locator”; e ajudam a que o disco seja tudo menos monótono. Se é relevância na música que os Wilco querem manter, o trabalho está feito e bem feito; acontece que nem tudo depende deles, pelo que o resto fica, a partir de agora, nas nossas mãos – de ouvintes.