Podemos confirmar que esta edição do Roque Rock Fest II foi uma noite feita de amizade, distorção (obrigada, tampões dos ouvidos), política e calor (suor).
Em 2025, Pedro Roque, fotógrafo e músico, decidiu celebrar o seu aniversário em comunidade: fez uma festa para amigos, com concertos de amigos (e não só para amigos), e assim nasceu o Roque Rock Fest. Neste segundo fim-de-semana de Maio, houve nova celebração, o Roque Rock Fest II, no Gasoline ACD, Barreiro, com um cartaz intenso: My Master The Sun, The Youths, Tainhas da Noite, Varge Mondar e DJ sets de Twisted Sisters & Xamã Roque e MAQUINA.
Infelizmente, chegámos um pouco tarde (a culpa foi do choco frito que jantámos, estava demasiado bom) e apanhámos My Master The Sun já em andamento. Banda veterana de Lisboa, que nos fez questionar onde acabava o metal e começava o punk: muita distorção, vozes grossas (e assertivas), uma sonoridade pouco polida, como manda a tradição. Foi um set entusiasmado, perfeito como arranque da noite.
Quando os The Youths subiram ao palco (de formação renovada com o Tony – dos Rival Clubs, no baixo), notámos uma tensão mais emergente no público. Nuno Sota, Fernando Chovich, Pedro Paulos, Tony Coelho e João Vairinhos, continuam a mostrar que têm coisas a dizer (e pessoas a querer ouvir). Sem nunca perder a sua identidade desgarrada e crua, a banda funciona bem entre si (não podemos deixar de referir que, de todos, o Tony esteve – quase – sempre de sorriso na cara, sempre concentrado. Vê-se bem que entrou há pouco tempo para a banda. brincadeirinha!).
E depois há o Sota. Há poucos vocalistas assim: energia a sair pelos poros, presença magnética que toma para si a iniciativa de amplificar importantes mensagens políticas, que nunca caem na cena performativa. Sabem, é aquela cena, se alguém tem uma plataforma, tem ou não o dever de a aproveitar para falar das coisas importantes? (tem e deve, na minha humilde opinião.) Numa das intervenções (e a que achámos mais pertinente), dizia “o movimento punk está muito fechado em si mesmo e tem de se abrir para outras lutas para não ficar no fundo do poço”. Isto daria pano para mangas, mas como isto é só uma tentativa de reportagem, não vamos entrar por esta discussão (um dia, prometo). Entre clássicos e músicas novas, os The Youths provaram porque continuam a ser uma referência inevitável do punk nacional.
Os Tainhas da Noite trouxeram outro tipo de urgência. Leo, Bruno, Helder e Johnny Pinha, mostraram ser uma banda cheia de vontade, com pedais acelerados e letras que enfiam os 10 dedos nas feridas hipotéticas. “Sou antifascista”, diziam-se sem rodeios. O concerto disparou em ritmos rápidos, também cheios de referências actuais, como o caso dos polícias da esquadra do Rato acusados de tortura.
Mas a surpresa maior acabou por vir no fim. Varge Mondar não é apenas uma localidade da zona de Sintra. Marcinho, Ricardo, Pedro Paulos (dobradinha) e Tiago, mostraram que em 12 minutos (eu contei), é possível por um grupo de pessoas a dançar (e moshar), acelerando, de forma colectiva, os nossos coraçõezinhos a batidas um bocado impróprias (em bom). Acho que foi tipo género um choque eléctrico, ainda mais incrível por terem sido a última banda (quem é que tem esta energia toda?). Muito ruído, muita distorção e um vocalista absolutamente cativante, capaz de alternar entre linhas mais agudas e momentos pesados, arrastados ou estupidamente rápidos. Ao fim de dez minutos, ouviu-se “chegámos à última música… a vida passa rápido”. E que bem que foi!
Foi uma bonita noite de celebração, abraçada por um espírito forte de comunidade e, ainda por cima, com direito a bons concertos e boas malhas.
PS – Também ouvimos dizer que o Fernando Chovich tocou com uma guitarra de 12 cordas, mas eu não consegui distinguir.
Fotografias de Rui Gato

























