Foi preciso esperar oito anos por um digno sucessor de Carrie & Lowell, mas ele está aí. Javelin mostra Sufjan em todo o seu esplendor de sofredor capaz de fazer grandes canções.
Sufjan Stevens é um batoteiro. Javelin, o seu disco mais recente, começa com um motivo simples de piano e uma melodia sussurrada que segue num lento crescente, ao quais se vão acrescentando um coro, ao mesmo tempo que os acordes de piano passam a ser arpeggiados. À marca de um minuto, o músico usa aquela que é a arma mais poderosa de todo o seu arsenal: o subir o tom da voz uma oitava enquanto entrega um verso dilacerante. Na canção inicial deste álbum, “Goodbye Evergreen”, após assumir que “cresce como um cancro”, o músico implora: “Deliver me from the poison pain”. Entra então uma cacofonia de coros, percussão, drones e efeitos vocais que transforma a aparente balada num exercício psicadélico quasi post-rock. Em menos de quatro minutos Sufjan faz a revisão da matéria dada nos últimos 20 anos passando pela fase de baladeiro, experimentalista e ainda pelo sofredor que lamenta uma e outra vez: “You know I love you”.
Como dissemos anteriormente, “Goodbye Evergreen” é uma recapitulação da já longa carreira de Stevens. O jovem que gravou mais de cem canções de Natal e que prometia vir a fazer um disco sobre cada estado norte-americano evoluiu musicalmente e pessoalmente. As suas letras estão muito mais adultas do que quando cantava sobre a uma viagem até Chicago acompanhado pelos seus amigos e as orquestrações estão cada vez mais complexas.
Em 2010 João Lisboa (um dos maiores) escrevia nas páginas do Expresso, carregadinho de razão: “Sejamos ainda mais justos: herdeiro verdadeiramente legítimo de Brian Wilson, actualmente, existe apenas um e chama-se Sufjan Stevens. E “herdeiro” no mais desejável sentido de quem, sem lhe macaquear os tiques, continua e enriquece uma peculiar visão musical da América, trabalha sobre os mesmos planos de complexidade vocal e orquestral e, higienicamente, presta bastante pouca atenção às tendências do momento”.
Isto era escrito a propósito do lançamento de All Delighted People, um excelente EP e um perfeito precursor de The Age of Adz, o disco mais arrojado de Sufjan até à data. Desde então, editou quatro álbuns a solo – um deles é composto por cinco discos de música experimental – e cinco colaborações. Alguns são pesados e pouco interessantes (Aporia e Planetarium); outros são melhores, mas longe do apogeu de criatividade (The Ascension) e também um disco absolutamente perfeito e talvez o melhor da sua carreira – a par de Illinois: Carrie & Lowell.
Javelin volta a trazer os temas pesados para cima da mesa e nele Sufjan aborda a perda do companheiro de longa data, da descoberta de uma doença incapacitante (síndrome de Guillain-Barré) e dos sentimentos de solidão e abandono. Tudo condensado por entre coros celestiais, arranjos de cordas luxosos e melodias deslumbrantes.
Javelin serve quase como um sumário do que Sufjan fez desde 2006. O banjo dos discos iniciais continua a perder protagonismo, mas não se perdeu a inventividade melódica que já ficara bem vincada em Seven Swans. Há elementos de grandiosidade, como em Illinois, experimentação como a de The Age of Adz e vulnerabilidade como a de Carrie and Lowell.
Se nos apontassem uma arma à cabeça (e não sei porque nos fariam isso, mas é um cliché que nos aprouve usar aqui), diríamos que Javelin tem quase uma mão cheia de temas que entram diretamente para o cânone das melhores canções de Sufjan: “Will Anybody Ever Love Me?”, “Everything that Rises”, “So You Are Tired” e “Shit Talk”. Todas elas canções capazes de eriçar os pêlos da nuca, deixar a garganta seca, a lágrima no canto do olho e a voz embargada.
Não somos loucos o suficiente para dizer que Sufjan Stevens está no patamar de Brian Wilson (afinal, quem está?), mas reafirmamos, com toda a certeza: Sufjan é o mais fascinante dos herdeiros daquele que é o maior génio da canção pop (apesar de fazer batota).