Dois anos depois de Ruby Blue e em 2007, Roísín Murphy, a ex-Moloko, lança Overpowered. Embora se mantenha na mesma linha que o anterior, este álbum surge mais intenso, vibrante e mexido. Um verdadeiro electro-disco, como foi denominado na altura do seu lançamento. O álbum teve críticas favoráveis e para quem já tinha apreciado o primeiro álbum de Roísín, certamente que vai gostar deste. Ainda mais do que em Ruby Blue, Overpowered vem marcar o assumir de uma nova personalidade, uma nova roupagem para a mesma mulher meio louca que vi dançar incansavelmente ao pé, dentro e em cima de um órgão, no Sudoeste em 2003, dando a cara e o corpo por Moloko.
Todas as letras das músicas presentes neste álbum têm o cunho pessoal da autora, mas sempre com algumas ajudas, assim como já tinha sido notado em Ruby Blue. No entanto, enquanto que naquele, Matthew Herbert entra na escrita e produção do álbum, em Overpowered existe uma enorme diversidade de produtores e de escritores. E isto não é necessariamente mau. O mais interessante é ver como o fio condutor entre todas as músicas é mesmo Roísín, e, apesar de existirem tantas colaborações, é mais que certo que existe ligação entre as músicas e que este álbum é completo e faz sentido, do princípio ao fim.
O single que dá o nome ao álbum abre as hostilidades e aos primeiros segundos ficamos logo amigos. É uma música quase sensual pelo movimento que imprime ao corpo. Ou então resulta numa patetada se a vossa dança sensual se assemelhar a uma lesma a caminhar em asfalto quente. Certo é que imprime movimento e é difícil ficar quieto. «You Know Me Better» não decepciona e permite manter o groove, assim como as músicas que lhe seguem. De destacar «Cry Baby» com uma batida ainda mais viva, uma linguagem mais directiva.
Sou o tipo de ouvinte que liga muito às letras das músicas. Claro que o som é a porta de entrada. Por mim até podem cantar lindas frases budistas cheias de sentido, mas se for ao som de um papagaio a morrer engasgado, eu passo. E esta é uma das qualidades de Roísín. Quando ouvimos músicas mais electrónicas sabemos que há sempre o risco de existirem não só batidas repetidas como também refrões rascas que são cantarolados no mesmo tom durante a maior parte da canção. O conteúdo acaba por ser mais oco do que a adolescência tardia. Mas Roísín não. Não me entendam mal, não é a colecção das melhores letras do mundo, mas é uma conquista: música electrónica com bons refrões, boas letras, pitada de ironia, e vá, um q.b. de desgosto amoroso (como quando em «Tell Everybody» ela diz «Baby, I don’t understand, Why you’re leaving me»).
«Scarlet Ribbon» e «Parallel Lives» (a última do álbum) são as duas músicas mais calmas do álbum que no entanto não descuram o seu lado mais electrónico nem as batidas menos prementes, mas sempre presentes.
Desde Overpowered que não há muito a falar sobre Roísin Murphy. Ou melhor, há, mas em fragmentos. Lançou variadíssimas canções, inclusivamente em italiano (2014). Fez muitas participações, onde se inclui a música «Don’t You Agree», presente num projecto de David Byrne e Fatboy Slim. Ainda em 2014 refere que está a trabalhar num novo álbum a solo. Queremos mais. Esperamos por mais. Queremos um álbum inteiro. Se faz favor.
