A Casa Capitão recebeu os Cat Soup, Cave Story, Baleia Baleia Baleia e os 800 Gondomar para uma noite de celebração do “comum”.
A Casa Capitão decidiu celebrar o “Ano Comum”, segundo os próprios “raramente valorizamos o comum, o habitual, o que é consistente (…) os anos comuns, que começam e acabam no mesmo dia da semana”. Ou seja, uma excelente razão para trazer bandas “comuns” (“pessoas como nós a dar o que têm e o que não têm em palco, por amor à música”): Cat Soup, Cave Story, Baleia Baleia Baleia e os 800 Gondomar. Uma noite rica que, a nosso ver, pouco teve de “comum”.
A primeira actuação coube aos Cat Soup, banda portuense de instrumental rock (bandcamp). O R/C da Casa Capitão acolheu um concerto íntimo, com uma sinfonia de distorção, acentuada pelo grito do saxofone. A sua música é um ambiente de cortar à faca, onde a melodia nos faz acreditar que vai ficar tudo bem (vibes de pandemia, mas em bom).
Mais tarde, seguiram-se os Cave Story (Gonçalo Formiga, Ricardo Mendes, José Sousa e Bia Diniz) arrancaram a todo o gás, comprovando, mais uma vez, o porquê de serem uma das bandas indie rock mais apreciadas: músicas sonoramente sólidas, que puxam para um dançar arrockalhado, com direito a alguns movimentos corporais meio tímidos, com refrões orelhudos e de fácil escuta. Um detalhe importante: existe uma cumplicidade muito visível entre a banda e as pessoas que os assistem, os sorrisos são mútuos e as palmas e gritos de alegria (“muito bonito”, diz alguém da plateia) confirmam que quem os está a ver está a gostar muito.
Apresentaram-se como “uma banda de rock profissional das Caldas da Rainha” e deram o seu melhor (e que bom que é), com a segurança de uma banda bem oleada.
Ora se os Cave Story são uma banda já polida e “profissional”, passamos para o Sótão e confirmamos que os Baleia Baleia Baleia são uma banda mais bruta e, que, provavelmente, arrisca mais, tanto na sonoridade, como nos temas cantados. O headline para este concerto poderia ter sido “Baleia Baleia Baleia: sótão em ebulição”.
Antes mesmo do concerto começar, ouvimos uma música que avisa, sem rodeios, que o que iremos assistir se tratará de um concerto que pretende ser de música de intervenção e de resistência. Diz parte da letra “Cheguei a acreditar que a nova democracia andava e o fascismo ia escorraçar”. Infelizmente a nossa procura não me fez descobrir de quem é esta música, mas achámos um gesto bonito, quiçá corajoso nos tempos que correm (imaginem, uma banda a ter um posicionamento político, sem medo de alienar os fãs).
Já com Manuel Molarinho e Ricardo Cabral em cima do palco, se dúvidas havia, anunciam-se como “perigosos terroristas de esquerda”, prontos a apresentar o seu mais recente álbum “Outra Vez Arroz”.
Manuel Molarinho, vocalista carismático, avisou: “prometi a mim mesmo e ao Ricardo que não ia falar tanto hoje, mas não quer dizer que não estejamos felizes. Mas está tudo nas letras.” E está. Mesmo com malhas com títulos “Antifa é otário ao contrário” ou “Super-agrobeto” ou “Hedoninho”, se há coisa que se pode contar nos concertos dos Baleia são as espécies de adendas com que vão polvilhando entre as músicas.
A puxar mais para um punk rock com toques de pop rock, sem vergonhas (como dizem os próprios), o Sótão (muito cheio) fez-se pequeno para tanto entusiasmo recíproco. Houve espaço para muitos mosh pits, acompanhados pelo ritmo acelerado da banda, havendo pausas para momentos mais delicodoce (“Deixa o Frio Entrar”), perfeitos para recuperar a energia perdida, mas, no geral, recuperando essa maravilhosa expressão dos anos 90, “foi sempre a abrir”.
Há uma coisa que a banda faz muito bem: o cruzar da mensagem política (dura e crítica) com uma sonoridade (sobretudo) efusiva, que nos permite levar a um ponto fulcral daquilo que também faz parte da resistência: para além da luta, estes momentos de alegria e sentido de comunidade. Eles dizem (e fazem-no) bem: “Não há desgraça que nós não queiramos tornar em festa.” E que refrescante é ouvir uma banda que tem algo a dizer.
Mais tarde, voltámos ao R/C para ver os 800 Gondomar. O trio de Rio Tinto, composto por Rui Fonseca, Alô Farooq e o mais recente baixista Luís (em substituição de Frederico Ferreira, que saiu recentemente), arrancou em plena sintonia. Acabados de lançar um álbum ao vivo da tour de 2025 pelo Japão (Japão!), “Monday in Hiroshima”, mostraram como continuam a ser uma das bandas mais interessantes que andam por aí. De sons rápidos, intensos e expansivos, conseguiram capturar o entusiamo do público, sempre a debitar uma energia constante e tesuda. Banda acarinhada pelo público, houve espaço para um ternurento “obrigado por estarem aqui, estamos muito emocionados”.
Como de habitual, dançou-se muito ao som do punk rock, ou, se quisermos ser precisos, a definição da própria banda: “insane-garage-noise-art-psych-lofi-punk-fluorescent-international-olympic-heartfelt-rock”, e celebrou-se em comunidade.
No fim desta celebração do que é “comum”, fica a ideia simples e necessária: num ano comum, numa sala comum, celebra-se a resistência comum. Com volume bem alto e com pequenas explosões de alegria que nos lembram que ainda estamos aqui, e juntos.
Fotografias de Rui Gato



















