Cão merece um quarto com vista para a cidade no que seja o equivalente ao Júlio de Matos no panorama musical. Não o deixem fugir, mas não o ignorem. O monstro já tem demasiados amigos; o cão não se importava de ter mais.
Cão, o primeiro álbum da banda um-pé-no-rock-um-pé-no-funk portuguesa conhecida por Ornatos Violeta, experimentou o estatuto de fresquinho (apropriando-me da expressão do site para o qual escrevo) no ano de 1997. Não foi assim há tão pouco tempo. Foi, na verdade, há mais de quinze anos. Desconheço por completo qual foi o mês em que viu a luz do dia, mas, sendo que nasci no final de 1996, não faltou muito para que fossemos companheiros de berço. É uma experiência estranha, esta de quase partilhar o aniversário com um dos nossos álbuns mais estimados; de certa forma, injecta alguma realidade quase palpável na sensação de proximidade que tenho vindo a sentir com este álbum desde que o descobri, isso sim, há relativamente pouco tempo.
E no entanto, quem é que se lembra do Cão? Basta deixar escapar as palavras “Ornatos Violeta” para me ver rodeada de vozes a entoar temas do segundo e muito mais célebre álbum da banda, O Monstro Precisa de Amigos, como “Ouvi Dizer”, “Chaga” ou até mesmo “Dia Mau”. É certo que será raro encontrar uma alma que fuja dos temas mais comerciais e que cante baixinho um “Punk Moda Funk”, uma “Chuva”, ou um “Mata-me Outra Vez”. Não tenho medo de comercialismos. É algo que tenho de tirar a limpo antes de qualquer outra coisa. E não desgosto por completo de O Monstro Precisa de Amigos. São apenas álbuns diferentes; como uma das maiores fãs dos Ornatos que já vim a conhecer explica, enquanto o Monstro Precisa de Amigos é um poeta apaixonado, o Cão é um louco a correr nu pela madrugada. Embora consiga compreender – agora mais do que nunca – a preferência do público geral pelo segundo álbum, causa-me alguma estranheza, acima de tudo, saber que pouca gente partilha da mesma opinião que eu – que a música portuguesa precisa, e talvez agora ainda mais do que em 1997, de mais loucos a correr nus seja a que horas for.
O próprio título do álbum também me leva a pensar. E não só pela falta de informação que encontrei acerca do dito álbum quando me debrucei sobre ele com os olhos carnívoros e ferozes de crítica, à caça de alguma informação objectiva, que viesse a dar algum profissionalismo ao texto que agora escrevo. Foi também pelo facto de, na capa de Cão, brilhantemente desenhada por um artista cujo nome infelizmente desconheço, o título do disco ser exclamado por um vulto feminino contra um fundo vermelho berrante, que se vê agarrado por um monstro (e não um cão) mais bizarro e caricato do que propriamente assustador. Cão é uma exclamação. A forma como está escrita na capa do disco, sob o discurso do vulto feminino, é precisamente Cão! O que me parece bastante relevante. Ao ouvir Cão, é possível verificar que este disco não é uma simples afirmação, mas sim um grito, um berro, uma explosão vocal de um ninho de emoções entrelaçadas e confundidas entre si mesmas. A fã que mencionei há pouco tem razão – e não têm sempre razão, os fãs? – Cão é louco, porque é descontrolado e frenético, é nu, porque todas as músicas se encontram completamente despidas da superprodução que veio a acompanhar o segundo disco da banda de Manel Cruz e companhia, e corre, corre, corre, sem nunca parar, num ritmo galopante e quase exaustivo ao ouvinte.
É verdade; Cão é um álbum exaustivo. Algo que não costumo dizer de muitos álbuns dos quais gosto tanto; mas ouvir este álbum de uma ponta a outra, começando pela energética “Punk Moda Funk”, passando por temas como a pela furiosa “Líbido”, as frustradas “Amor É Isto” e “Mata-me Outra Vez”, sinto que é praticamente impossível passar por todas as faixas sem sentir a necessidade de nos sentarmos e respirar fundo. Existem excepções, claro, como em todos os álbuns que arrancam em ritmo de corrida; a calma, doce e honesta “Chuva”, cuja letra se resume a – “embora lave o medo que há do fim/a chuva apaga o fogo que há em mim/oiço a voz de quem me quer tão bem/e fico a ver se a chuva ouvirá também” – porque para quê dizer mais? – e a triunfante “Raquel”, uma carta de amor quase infantil de um Manel Cruz que simplesmente leva três vezes a conseguir encontrar o acorde, que dura um total de quarenta segundos antes de emergir numa bizarra apropriação da emissora nacional.
Mas a faixa que melhor descreve o ambiente catatónico e anárquico de Cão é mesmo “Débil Mental”, furiosa, galopante e descomplexada (e profundamente desenraizada de tudo o que é real e palpável). Manel Cruz mergulha num oceano de transtornos não justificados contra tudo o que o rodeia. Chegamos a questionar se ele é de facto o louco que corre nu pela madrugada, metaforicamente ou não, quando uiva versos como “se as minhas calças parecem um pijama/da próxima vez eu saio como entrei na cama” ou “o mundo não é nada/nada à minha beira/se tudo em que acredito já não está preso à cadeira”, culminando com um furioso “há que eu saiba um ponto igual em nós: somos todos desiguais!”. Se no seguinte álbum da banda Manel Cruz veio a desenvolver um engenho poético surpreendente, em Cão é descontrolado e frenético como uma criança traquina, que se funde brilhantemente com a energia colérica de toda a instrumentação, não só na faixa mas em todo o álbum.
Portanto, acerca de Cão, digo apenas; não é um álbum para todos, mas sim um álbum para cada um de nós, que, ao ouvi-lo, nunca esquecerá aquele pesadelo encarnado memorável do qual fugimos pela madrugada, nus, loucos. Frenético, ansioso, descomplexado, irreverente, sem desculpas, Cão merece um quarto com vista para a cidade no que seja o equivalente ao Júlio de Matos no panorama musical. Não o deixem fugir, mas não o ignorem. O monstro já tem demasiados amigos; o cão não se importava de ter mais.
De 2002 e com a exata mesma opinião. O mostro precisa de amigos, grande album, mas este é um album que me faz sentir bem e até me poe mais feliz, e se adqua mais à minha maneira de ser. A maneira “que sa foda” de não querer saber o que os outros pensam. Isto sim é um album e esta foi uma boa critica
Já seria de saudar que alguém que nasceu em 1996 não ande atrás dos one direction e merdas assim. Bem-vinda ao lado bom do rock, camarada.
Bom primeiro artigo :)