Este é um daqueles discos que nos assombra e temos de voltar a ouvir, de tempos a tempos. E passados quase 30 anos do seu lançamento, assumimos a intemporalidade de La Llorona.
Este primeiro trabalho de Lhasa garantiu-lhe um Juno Award em 1998 como melhor artista de World Music e foi rampa de lançamento para a sua infelizmente curta carreira, que termina com a sua morte em 2010, aos 37 anos.
É um álbum totalmente cantado em espanhol, lançado no Canadá em 1997 e no resto do mundo em 1998, e ao longo das suas 11 canções, tem espaço para lamentos, forças e uma mistura entre canções folk mexicanas e composições originais de Lhasa e do seu colaborador Yves Desrosiers.
A voz de Lhasa de Sela é uma constante surpresa, que faz lembrar cabarets em caves com fumo; e a sua entrega, privilegiando mais a emoção, ressoa mesmo depois de terminar cada canção. Talvez a descrição melhor da cantora será a de uma espécie de Edith Piaf em espanhol. Antes de se dedicar à música passou uma infância itinerante, ligada ao circo, o que explica esta mistura de tradição e modernidade, ao estar com pessoas e em lugares muito diferentes nos seus anos formativos. Este seu primeiro disco é assim uma mistura de tradicional e moderno, classificado muitas vezes como neo folk. Mas mais importante que as classificações é a emoção. E a música.
Logo quando começamos a ouvir Lhasa a cantar a primeira frase de “De cara a la pared” é impossível não querer ouvir mais, querer descobrir onde vai o seu lamento amoroso, fechar os olhos e deixar-nos levar pela canção e o chapinhar de água. “La Celestina” é mais animada, e é o outro lado de La Llorona, uma espécie de canção à roda, como se fosse cantada num ambiente de grupo e acompanhada de saias a girar.
“El Desierto”, um dos pontos mais fortes de La Llorona, é uma libertação, com uma voz muito sentida, onde a percussão marca a toada. Vale a pena referir que a instrumentalização em todo o disco é perfeita para acompanhar a voz da cantora de então 25/26 anos. Serras, violinos, contrabaixo e guitarra, normalmente são mais uma vez instrumentos tanto tradicionais como mais modernos. “Por Eso Me Quedo” é uma bonita balada e “El Payande”, a primeira das canções tradicionais mexicanas arranjadas por Sela y Desrosiers, é um lamento de quase fado, ao estilo de Chavela Vargas.
E por falar em Chavela, no álbum há uma versão de “Los Peces”, canção tradicional popularizada por esta referência maior da música, que Lhasa consegue transformar em sua, muito mais animada, e perfeita para dançar. “Floricanto” e “Desdeñosa” são mais duas canções tradicionais mexicanas. A primeira com várias vozes de Lhasa acompanhada de um acordeão, que não chega a ser um tango mas anda ali à volta dessa ideia. A segunda mais a atirar para o flamenco é mais uma prova da emoção que a cantora consegue fazer passar num tema de amor.
Na parte final do disco voltamos às composições originais. “El Pajaro” é a minha canção preferida de La Llorona. O puxar do “j” apanha-me sempre como uma nota inesperada e as mudanças de andamento acompanhadas de cajón, acordeão, guitarra e contrabaixo fazem-me lembrar muitas cores. Acompanhada de “Mi Vanidad”, uma reflexão sobre morrer de amores com uma divertida pronuncia francesa no refrão. É que dizer “ya no se canta sin tu amor me moriré”, e na mesma frase cantar “ven, tomamos un café / besamos en français” é uma divertida mudança de tom, numa canção que oscila entre o confessional e o animado, com palmas a acompanhar.
Este é um álbum que cativa, que nos leva de viagem e que, sendo o primeiro lançamento discográfico da artista, mostra uma segurança musical muito além do normal, e é um dos motivos, não o unico claro, em três discos e várias colaborações que Lhasa de Sela logrou na sua carreira. A prova está em todos os temas de La Llorona, e na última música, “El Árbol del Olvido”, uma composição antiga argentina, clássica, com outros intérpretes como Victor Jara. Esta versão tem semelhanças à canção de Jara mas com o slide e o baixo a criar a cama sonora para a voz doce mas arranhada de Lhasa de Sela.
La Llorona é um disco de extremo bom gosto na produção, onde nenhuma canção parece sobrar. É bastante dramático, com raízes na américa latina e uma obra maior da música, que explica a sua intemporalidade e imortalidade sonora de Lhasa.