Com Creature of Habit, Courtney Barnett não se procura reinventar e ainda bem. Nunca sabemos o quanto precisamos da zona de conforto até a encontrarmos numa combinação energia guitarrística e nervo melódico.
Para começo de conversa: “Pedestrian at Best” é uma das grandes malhas do indie dos 10s, arrasadora. “Depreston”, num registo completamente diferente, não lhe fica muito atrás. Acrescento ainda à equação uma pérola mais “escondida” de seu nome “An Illustration of Loneliness” (“I’m thinking of you too”) e constato dificuldade de digestão do facto de se terem passado onze anos do lançamento do estrondoso Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit.
Mas já lá voltamos, falemos um pouco do presente, e de Creature of Habit, o novo disco de Courtney Barnett. Dele, houve quem tenha dito que era chato. Houve quem perguntasse porquê ouvir Barnett em 2026. Houve quem nada retirasse duma primeira audição e o abandonasse. Pois bem, estou aqui para contrariar todas essas vozes. Confesso que não segui todos os discos que a cantora australiana lançou desde o acima referido Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, mas temos aqui no Altamont quem tenha dito coisas bonitas de Things Take Time, Take Time (2021) e de Tell Me How You Really Feel (2018). Cheguei portanto “fresco” a esta nova rodela.
E o que encontrei, perguntarão, encontrei uma artista confortável na sua pele, fascinada pelas pequenas inseguranças, contradições e neuroses da vida quotidiana. Se, como diz a jovem Ana Catarina Tiago, Things Take Time, Take Time já mostrava uma Barnett mais contemplativa e serena (“serve de abraço aos amigos, de aconchego aos corações partidos e de sossego às almas inquietas.”), este novo trabalho mantém essa maturidade emocional, devolvendo parte da energia guitarrística e do nervo melódico que fizeram de Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit o seu grande manifesto artístico.
“Wonder” é talvez o exemplo mais curioso disso mesmo: uma canção primaveril, com guitarras leves e refrão luminoso, que esconde uma letra marcada pela desconfiança e pela duplicidade social. É deliciosa a incoerência entre forma e conteúdo – a melodia solarenga choca de frente com a perversidade de uma canção que afinal é sobre alguém próximo que fala mal nas nossas costas. Este desalinhamento emocional torna a canção simultaneamente viciante e desconfortável.
“Mostly Patient” revela o lado mais empático de Barnett. É uma canção de amizade e intervenção, quase um abraço em forma de indie rock, construída à base de versos como “I know you’re aching for better days” e “Hope that you don’t mind me saying I think that would be a waste”, onde a australiana tenta puxar um amigo para fora do nevoeiro mental.
Outra canção que me ficou na retina foi “Another Beautiful Day”, que encerra o álbum. Na minha imaginação, Courtney acorda, observa um qualquer dia lindo pela janela, pega na sua companheira guitarra que estava pousada mesmo ali ao lado e inventa palavras para acompanharem riffs instantâneos. Depois a base sonora fica mais composta com bateria e coro, enquanto nos guia pela pele de galinha de sentir olhares que nos marcam.
Now, every time you look at me, look at me
I try to save that somewhere in my memory
Yeah, every time you look at me, look at me
I don’t ever wanna lose that feeling
“Mantis” será, porventura, a grande canção deste disco (e talvez por isso tenha honras de capa), e uma das que mais me conquistou das que ouvi este ano. Começa com uma guitarra distante, como se estivessemos no sofá a ouvir música a chegar lá de fora, e fôssemos abrir a janela para ouvir melhor, trazendo o consequente aumento de volume. E importa ouvir com atenção quem nos diz que
I am exercising
How good it feels to be alive
And no surprises up my sleeve
Everything is temporary
No fundo, Courtney Barnett não procura reinventar-se em Creature of Habit, e ainda bem. A intenção terá sido mais refinar a fórmula, mostrar a face de quem já nada precisa provar, apenas de continuar a observar o mundo com aquele olhar meio cansado, meio enternecido, que tem o seu encanto. Não tem o impacto geracional de Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, mas faz do equilíbrio a sua força: menos explosivo, mais sábio, e cheio de pequenas verdades desconfortavelmente familiares.