“I’m older now, much older than I was, when I was young”
A dança da memória faz-se dentro de nós, assim como a procura por um lugar que nunca existiu. E um trago de whiskey pode ajudar a espicaçar o silêncio de anos.
De tempos a tempo, surgem discos marcantes que envelhecem bem porque pertencem ao seu tempo. Outros há, no entanto, que sobrevivem ainda melhor por nunca terem tentado verdadeiramente acompanhá-lo. Depois, há circunstâncias felizes que fazem do crítico um ser que, com agrado, volta a escutá-los, por uma série de coincidências, e neles vão ficando, por alguns dias, tão agradados como surpreendidos por tudo se manter na mesma: belos, inquietantes, nostálgicos e com a serenidade de outrora. Mas deixemos os plurais e passemos ao caso singular em destaque.
Trinta anos depois da sua edição, Whiskey, a estreia de Jay-Jay Johanson, continua a existir nesse lugar raro, onde a música parece fazer morada num qualquer lugar fora do calendário. É um álbum profundamente marcado pela segunda metade dos anos 90, pelo diálogo entre o trip-hop, o jazz, a electrónica e uma certa sofisticação pop europeia, bem longe da música que se fazia de guitarras, atitude desgarrada e camisas de flanela aos quadrados, do outro lado do oceano Atlântico, mas que escapa ao destino de tantos discos da sua época, precisamente porque nunca confundiu modernidade com novidade. O seu verdadeiro assunto sempre foi outro: a memória, fosse ela verdadeira ou inventada, pouco importando esse facto, até porque a arte, como bem se sabe, quanto mais fingida, mais real se torna.
Desde os primeiros segundos de “It Hurt Me So”, percebe-se que Jay-Jay Johanson prefere insinuar em vez de afirmar. A voz parece surgir da mesma névoa que envolve os arranjos. Não há urgência, apenas um lento movimento em direção ao interior. E é aí que parece haver uma mistura de artes em silenciosa ebulição, buscando o perfeito laço final, entregando canções próximas da perfeição. É curioso perceber a facilidade com que se pode associar este disco à arte do grande ecrã, em que cada canção cria um espaço, antes de contar uma história, antes de trazer a memória à superfície dos sons e dos ritmos.
Outra coisa curiosa é que ao longo de Whiskey, o amor nunca aparece como presença, mas como vestígio. Em “I Fantazise of You”, por exemplo, o desejo alimenta-se daquilo que nunca chegou a acontecer. Em “The Girl I Love is Gone”, algo bossanovista, a perda é cantada sem dramatismo, quase como quem aceita que algumas ausências acabam por fazer parte da estrutura sentimental da vida. E, para que a ideia em apreço se torne ainda mais óbvia, em “So Tell the Girls that I am Back in Town”, o que parece sobressair é a promessa triunfal presente no título da canção, embora a interpretação o desminta delicadamente. É, para qualquer efeito, uma extraordinária canção. No entanto, em todas as faixas, há um lençol nostálgico que as cobre, acetinado para que seja melhor ao toque, ao ouvido, ao prazer.
Reduzir Whiskey a um exercício de melancolia será algo injusto. Há também ironia e um subtil sentido de humor, ainda que sempre envoltos numa mesma elegância discreta. A memória (aí está ela de novo), nunca se move em linha recta. Avança, recua, repete-se, corrige-se, faz de nós o que bem quer. É menos um arquivo do que um organismo vivo. Por ser um facto indesmentível, avancemos mais um pouco…
Mesmo quando Whiskey abdica da canção tradicional, Jay-Jay Johanson mantém intacta a coerência do disco. “Extended Beats” funciona como um espaço de respiração, um interlúdio onde as atmosferas falam mais alto do que qualquer melodia. O mesmo já não acontece com “Skeletal”. E é precisamente essa confiança no regresso a um quase silêncio que distingue Whiskey de tantos álbuns produzidos na mesma década.
Whiskey vai-se tornando, à medida que avança, ainda mais contemplativo, como se a bebida que dá nome ao álbum fosse começando a fazer o seu efeito etílico. Em “I’m Older Now”, canção âncora de todo o disco, fundada no sample de “Fish Beach”, do soberbo Drowning By Numbers, de Michael Nyman, é interessante a ideia encontrada de que o tempo não apaga as perdas, apenas lhes altera a temperatura, digamos assim. Melhor ensinamento é impossível. “Tell Me Like it is”, de tão elvis presleyana, reforça os contornos nostálgicos sempre presentes em todo o álbum. “Mana Mana Mana Mana”, o tema final, é Jay-Jay Johanson a olhar para o céu, para as estrelas, à espera de um sinal amoroso que tarda em concretizar-se.
O que impressiona em Whiskey, três décadas depois, não é apenas a elegância da escrita ou a subtileza dos arranjos, mas a coerência de uma visão artística que nunca precisou de cantar alto para que o ouvíssemos com altíssimo apreço. Num presente dominado pelo excesso de estímulos e pela velocidade do consumo, este continua a ser um disco que exige disponibilidade. Há que escutar os silêncios, para aceitar a ambiguidade que nele reside e para compreender que a memória, quando tratada como matéria estética e não como ornamento sentimental, pode ser uma forma de conhecimento. Talvez seja essa a maior conquista de Jay-Jay Johanson. Whiskey não nos convida a regressar aos anos 90. Convida-nos a regressar àquele lugar, cada vez mais raro, onde a música não serve apenas para preencher o tempo, mas para o suspender, com delicadezas de nuvens.