Música de Elevador é o novo disco de Margarida Campelo e vem mostrar, uma vez mais, uma artista capaz de fazer coisas verdadeiramente novas, daquelas que só saem cá para fora quando nos despojamos de toda a seriedade que o mundo nos incute.
Margarida Campelo estreou-se em nome próprio há três anos, mas não é nova por estas bandas. As suas colaborações estendem-se entre Bruno Pernadas, Minta & The Brook Trout e Cassete Pirata (entre outros!) e acostumaram-nos a sonoridades muito próprias. Entre jazz, indie pop, neo-soul e R&B, com um toque de experimentalismo e brincadeiras, o seu primeiro disco, Supermarket Joy (2023), veio cimentar uma artista versátil e livre para fazer o que bem lhe apetecia e foi uma surpresa deliciosa.
Lançado hoje, novamente pela Discos Submarinos, Música de Elevador é o seu segundo LP e é um bom uso de livre-arbítrio, que vem mostrar, uma vez mais, que Margarida Campelo usa os currículos que a formaram para coisas verdadeiramente novas, daquelas que só saem cá para fora quando nos despojamos de toda a seriedade que o mundo nos incute e brincamos com sonoridades e texturas, com os nossos amigos e com as nossas referências. Gravado no Estúdio 52, na louva-a-deus e em casa da própria, Música de Elevador é inteiramente composto, produzido e arranjado por Campelo, sendo as letras escritas a par de Ana Cláudia e Beatriz Pessoa.
As inspirações dos anos 80 que marcaram o primeiro LP ganham uma nova forma em Música de Elevador. Se Campelo nos deu synth pop primeiro, agora mergulha completamente e sem remorsos nos segredos da sua criatividade, com um pouco de pop romântico (a balada ”Um Só Final” tem o seu quê de Marco Paulo), misturado com as trivialidades do quotidiano (”Elevator Love”), e sintetizadores cacofónicos (”Seis e Meio, dança de corredor”), mas sem nunca perder o toque contemporâneo que caracteriza as suas letras (em “Sei Sei Sei”, Campelo canaliza a sua Femme Falafel interior e canta sobre skincare coreana e pão de massa mãe).
As doze faixas de Música de Elevador mostram-nos um bocadinho mais do universo de Margarida Campelo, em todo o seu esplendor Humana Vintage e boate luminosa. As músicas são conceptualmente simples, mas musicalmente ricas e esteticamente trabalhadas em diferentes panoramas. Misturam português e inglês, têm vocals que passaram de moda há 30 anos e os instrumentais são tão importantes como as canções. É um retro actualizado, um disco colorido e cheio de brilhantes — provenientes de glitter, não de brilhantina. Campelo não cumpre regras e o resultado é um disco coeso, criativo e profundamente seu.
Margarida Campelo é uma artista plural e competente em todas as frentes a que se propõe, mas é sobretudo uma pessoa muito divertida, que usa o seu livre-arbítrio para fazer música que se leva pouco a sério e que, por isso, é um deleite de ouvir. O seu currículo e a sua formação podiam anunciar tentativas pretensiosas de fazer jazz pop moderno, mas Campelo escolhe — e muito bem — escrever letras leves e montar um disco inteiro à volta do elevador, um espaço pequeno, fechado e desconfortável, o maior liminal space de sempre, que, aqui, se transforma num cenário sofisticado e onde apetece ficar. Música de Elevador continua a proposta de Supermarket Joy e consolida Margarida Campelo como um dos nomes mais curiosos da música portuguesa contemporânea.