O novo álbum de Jack White traz-nos um elétrico festival de irreverência rock (e não só…), deixando bem claro que está em boa forma criativa. Reservem-lhe lugar – é bem provável que esta alucinante viagem, pronta para deslumbrar ao vivo, venha a estar entre os melhores discos do ano.
Ironia, crítica aguda ao estado atual do mundo (ou não fosse o músico um constante, contundente e público crítico do ocupante da Casa Branca) e a explosiva mistura de rock e hard rock com salpicos de blues cruzam todo o novo disco de Jack White, intitulado Frozen Charlotte, referência a bonecas em cerâmica dos tempos vitorianos. São 13 canções aceleradas que, por certo, alguns setores da crítica não deixarão de acusar de excesso de estridência em certos momentos. Mas não é disso que se trata.
Embora este sucessor de No Name (2024) só tenha sido publicado em julho, três meses antes já circulavam duas canções, precisamente as primeiras do alinhamento: “G.O.D. and the broken ribs”, um misto de brincadeira apocalíptica com referências bíblicas que ganham outra dimensão, mas também “Derecho Demonico”, intransigente defesa de liberdade e autonomia, além de crítica a quem desencadeia processos e nunca os conclui. Indomáveis guitarras fazem saltar faíscas da sua distorção e reverberação. E a voz, como sabemos há muito, nunca é tímida nesse cenário melódico.
Já em junho, “Dollar bill”, que representa um golpe certeiro no coração do poder e da ganância (“You can’t control me/Unless you owe me”), foi outro avanço em relação ao álbum.
“There’s nobody there”, piscadela de olho à nostalgia, propõe um irresistível riff de guitarra que talvez nem o lendário Jimmy Page, dos Led Zeppelin, recusasse assinar; com “Raising the grain” confirmamos que a dor nos faz crescer; “You’ll never fix me” e “Nobody knows” são descarados convites ao rock desenfreado; “I can’t believe what I’m hearing” é uma constante descarga elétrica, sempre a abrir, desde o grito selvagem do início até à derradeira batida; “Thick as Thieves” desenrola-se em ondas de choque à volta da cumplicidade no mal; “All alone again” e “She’s in a frenzy” formam uma espécie de unidade própria; “Making contact” soa a crítica à sociedade de consumo seduzida pela tecnologia; e o fecho cabe a “Neighbors blues”, diversificada crítica bem bluesy a vizinhos incomodativos.
Na companhia de Dominic Davis (baixo), Patrick Keeler (bateria) e Bobby Emmett (teclas) vão ecoando os diferentes projetos do músico, de White Stripes a The Raconteurs, passando por Dead Weather. E permanece presente (e de que maneira!) o conselho recebido de Prince numa festa: “Don’t let anyone tell you how to play your guitar.”
O talento parece inesgotável e cruza gerações. Em alguns espectáculos da digressão que vem apresentando, Jack aproveita para abrir espaço ao talento da filha, a quem já dera oportunidades ainda na adolescência: Scarlett White, de 20 anos, no começo de julho foi a baixista em temas como “Cannon”, dos White Stripes, ou na versão desta antiga banda de Jack e da mulher, Meg, para a canção “John, The Revelator”, original de Blind Willie Johnson.
Tudo somado, o rebelde dos riffs memoráveis e de históricas pérolas do rock & blues apresenta um trabalho de elevado calibre. Vamos lembrar-nos deste disco quando se decidirem as escolhas para os melhores do ano. Aliás, pelo sim, pelo não, o ideal é mesmo ir já reservando vaga.