Uma brisa de fim de tarde num disco que cruza a bossa nova, a orquestra e o jazz.
Residente em Los Angeles, o guitarrista brasileiro Fabiano do Nascimento é um virtuoso das cordas, e um tipo atarefado. Desde a sua estreia, há pouco mais de dez anos, tem mais de uma dezena de discos, seja a título individual seja em colaborações, que o têm levado desde o som do seu Rio de Janeiro mais tradicional ao jazz ou ao mundo da electrónica.
Ainda assim, o seu momento alto, em termos de reconhecimento internacional, chegou agora, com este Vila. A vila refere-se ao Bairro Saavedra, no Rio de Janeiro, um daqueles bairros fechados tradicionais como existem em tantas grandes cidades pelo mundo – como em Lisboa – e que serviu de casa a um jovem Fabiano. Esse ambiente mais íntimo, de uma vizinhança como já não existe, com crianças a brincar na rua e vizinhas a falar à janela, funciona como um portal para um outro tempo, um refúgio contra os tempos modernos.
Não por coincidência, o disco abre com “O Tempo (foi o meu mestre)”, uma nova versão de um tema antigo, “O Tempo”, e aqui a única canção servida por voz em toda esta vila. Depois disto, que marca o tom, ficamos entregue apenas aos instrumentos, e que bem entregues ficamos.
O segredo aqui está na forma harmoniosa como se joga entre a guitarra virtuosa mas contida de Fabiano do Nascimento e o trabalho da Orquestra de Vittor Santos, com 16 músicos a seguirem os arranjos luxuriantes de Santos e do também brasileiro Arthur Verocai.
O tom é sempre, sempre bonito. Desde os momentos mais calmos e mais íntimos, em que a guitarra laboriosa assume as despesas, até aos mais intrincados, com a orquestra a assumir mais protagonismo, mas ficando sempre aquém de atingir um ponto épico. Temos dramatismo sonoro, sim, mas sem nunca soar a agressivo. Tudo neste disco é acerca de uma atmosfera nostálgica e serena.
Ao longo de 11 temas, vamos deixando-nos guiar por músicas aparentemente simples mas que repetidas audições revelam estar cheias de enigmas musicais, um triunfo de composição, de arranjos e de execução. Esse é talvez um dos grandes trunfos de Vila, parecer ser simples e acessível em cima de uma musicalidade que é tudo menos isso.
Vila é um trabalho no qual é fácil de entrar e difícil de sair. Tanto se presta de forma excelente a música de fundo como nos agarra pelos ouvidos se nos sentarmos a escutá-lo com verdadeira atenção. Ao mesmo tempo, tanto o apreendemos de imediato – lá está, a sua acessibilidade – como garante que vamos sempre tendo pormenores por descobrir, assegurando que estamos perante uma companhia para muitos e bons tempos.
Talvez por tudo isto Vila pareça um disco fora do seu tempo. Lembra-nos as grandes peças musicais dos anos 50 e 60, cruzando estilos musicais em busca de um novo mundo, numa altura em que o jazz descobria as cordas e o samba e a bossa nova obrigavam os americanos a swingar de forma diferente.
É, assim, um disco intemporal, mas um disco profundamente necessário nos tempos apressados e duros que vivemos atualmente. Vila, ao primeiro acorde, faz suspender o tempo e abraça-nos como sempre precisámos.
É um discreto triunfo e um dos discos mais bonitos dos últimos anos.