Mais de quatro décadas e meia passadas, regressamos a um momento gélido e hipnótico. Orquestrámos manobras no escuro do tempo sem nos perdermos no caminho.
Ouvimos este disco como se estivéssemos a contemplar uma imagem ou um quadro. Vem-nos à cabeça, assim de repente, O Peregrino Sobre o Mar de Névoa, de Caspar David Friedrich, retirando-lhe a presença humana e substituindo-a pela frieza quase lunar da fotografia de Richard Nutt. E por aí ficamos, observando o que os ouvidos nos proporcionam. Organisation é um álbum enganoso. Começa de uma forma e termina doutra, bem mais fidedigna da mensagem global que nos apresenta. Mas vale a pena deixarmo-nos enganar, acreditem.
Ouvir Organisation, o segundo longa-duração dos Orchestral Manoeuvres in the Dark, editado no fulgor pós-punk de 1980, provoca uma estranha e boa sensação de isolamento térmico. Parece que a nossa vida, nos momentos de audição, está entre quatro paredes que nada deixam que aconteça a quem entre elas se encontra. Como se estivéssemos encapsulados e sujeitos, nessa bolha de tempo, espaço e som, a presenciar uma viragem de década, assistindo ao desenho sonoro de um futuro eminentemente mecânico e eletrónico. Pouco importa se Andy McCluskey e Paul Humphreys assinaram aqui a sua obra-prima ou não. Julgamos mesmo que não, mas talvez seja, artisticamente falando, uma das suas mais honestas propostas.
O título do álbum não deixa margem para quaisquer equívocos. É uma vénia explícita, devocional, aos Organisation, o coletivo germânico que serviu de rampa de lançamento para os Kraftwerk. Não se trata apenas de uma herança nominal, mas sim de uma partilha genética. Um ADN de sons, ritmos, paisagens que não se estranham, antes se admiram. Se os mestres de Düsseldorf injetaram na música a precisão cirúrgica dos sintetizadores e a mística dos caminhos-de-ferro e das autoestradas, estes dois lads de Wirral recolheram essa matriz e cobriram-na de uma névoa tipicamente britânica. Ela paira por todos o lados de Organisation, invade-nos a alma e o espaço onde nos encontramos. Tudo passa a ser o tal mar de névoa, agora pintado a sons. Nela há uma reverência alemã em cada batida programada, uma geometria que organiza o caos interior de dois jovens fascinados por máquinas. Uma espécie de Crash ballardiano, embora sem a vertente macabra que no clássico livro encontramos. A beleza de Organisation reside precisamente na sua assustadora frieza laboratorial. O som que dali brota não procura o aconchego ou o calor das pistas de dança convencionais. Os sintetizadores cortam o ar como lâminas de gelo, sustentados por caixas de ritmo que imitam o bater de um coração artificial. “Enola Gay” é a exceção. O incontornável farol comercial do disco disfarça, sob uma linha melódica irresistível, a tragédia nuclear e a crueza do bombardeamento que historicamente conhecemos. Enganador, como referimos de início, porque é no labirinto das restantes faixas que a verdadeira natureza do álbum se revela.
É numa certa desolação que encontramos o lado mais experimental e telúrico da dupla dos OMD. Temas como “The Misunderstanding”, “VCL XI” ou “Stanlow” transportam sonoridades sombrias e dissonâncias abstratas, que aos poucos vão espalhando o seu bom veneno. Em “Statues”, inspirada pelo suicídio de Ian Curtis dos Joy Division, a música arrasta-se num lamento fúnebre, quase gótico, onde os sintetizadores parecem acenar um imenso adeus. É pop desolada, despida de artifícios, que nos anos e décadas seguintes estiveram na base de bandas como Depeche Mode, por exemplo. Organisation é um álbum de referência de nomes incontornáveis como LCD Soundsystem, Moby, Porcupine Tree, Yann Tiersen, Public Service Broadcasting ou Skinny Puppy, para que se perceba do que estamos a falar. Não é um disco qualquer.
Para quem gosta, como nós gostamos, de reparar nos pormenores, a própria capa do álbum surge como a metáfora visual perfeita para o universo estético contido no vinil. A já mencionada e icónica fotografia de Richard Nutt, que retrata colinas da Ilha de Skye, é um manto cinzento e desolador que ilustra com exatidão a música dos OMD neste período. Aquelas montanhas escuras, recortadas contra uma atmosfera gélida e impessoal, são o espelho das canções. Imponentes, distantes, marcadas por uma beleza austera que parece estar de costas voltadas (de novo a referência ao quadro de Caspar David Friedrich) para o que é humano ou humanizado. Essa natureza congelada reflete na perfeição os sentimentos mecânicos cristalizados no disco.
Organisation permanece, até hoje, como um monumento de eletrónica emocionalmente distante, mas plasticamente digno de interesse e registo. Um daqueles registos que nos salvam pela exigência e nos desafiam a ouvir com tempo. Talvez não se ganhe o céu, mas também não se perde o caminho que nos pode levar a descobertas que, sem custo, antes com gosto e prazer, gostamos de partilhar.
- nota de rodapé: comprei Organisation em CD no já distante ano de 2010, num invernoso dia de março, em Hamburgo, na maravilhosa loja Saturn. O lago Alster estava gelado, podendo-se andar por cima dele. Tudo fazia sentido.