O Apolo da música portuguesa está de regresso! Conviveu com Zeus e tem coisas humanas para nos dizer.
Benjamim continua a revisitar os elementos clássicos, mantendo-se na periferia dos corações urbanos. É essa a sua natureza. Depois de um delicioso e profundo mergulho nos mares das Berlengas, agora ergue-se até ao Olimpo, um moderno Fernão Lopes das coisas humanas e mundanas. Levado pelas mãos das suas próprias canções, elevou a sua escrita para ir ter com Zeus, e a metáfora do título do seu mais recente longa-duração não pode passar-nos ao lado. Da mesma maneira que um português, no século XVI, viu a Máquina do Mundo como sinal evemérico da sua grandeza, Benjamim revela nestas suas crónicas que é ele quem comanda, quem lidera a música portuguesa dos nossos dias, com um distinto e sábio engenho sonoro, e com marca bem registada nos nossos sempre predispostos ouvidos. O Apolo luso dos tempos modernos está de regresso. Saudemo-lo!
Crónicas do Monte Zeus é já o quinto álbum de estúdio de Benjamim, e surge como um espelho de maturidade, dando valor à palavra e ao que ela diz sobre as instâncias da vivência humana, levando-as, às palavras, até ao epicentro da sua música, ao contrário do que acontece tantas vezes com tantos outros artistas nacionais, em que neles ouvimos apenas, através do que cantam, ironias patéticas que não levam a lado nenhum.
Composto por oito canções sem grandes rodeios, lineares e depuradas, o disco funciona como uma fotografia sensível e crua, mas profundamente afetuosa, da vivência humana atual. O amor é a essência de tudo, e só ele poderá salvar-nos, a nós e ao mundo. É importante perceber que foi este o caminho escolhido por Benjamim. Diz muito sobre o que é e o que pensa o homem por detrás de tudo isto.
Este novo trabalho afasta-se dos sintetizadores solitários do registo anterior, As Berlengas, e faz, aliás, o movimento inverso: traz as pessoas e as relações reais para dentro das canções. A arte é sempre sobre nós, convém não esquecer esta premissa, e desta vez somos nós que mergulhamos num mar que não é mar, antes um oceano de atlânticas pérolas sonoras com palavras e metáforas e outras figuras de um estilo muito próprio.
Assim, o álbum ilumina-se ao transformar o mundano em poesia, através de temas centrais como o amor, o dia-a-dia e o que fazemos com eles. A nossa vida, a que levamos enquanto ouvimos discos como este, por exemplo, tem semelhantes equivalências. Daí ser prazerosa uma refeição sonora destas, cheia de ingredientes ricos em coisas que nos fazem ser pessoas e que nos sabem deliciosamente bem.
O single de abertura, “Recursos Humanos”, exemplifica perfeitamente esta dualidade. A música serve tanto de crítica à nossa sociedade corporativa e mecânica, como de celebração dos laços afetivos que nos salvam dela. Já agora, um outro reminder sobre arte: ela é, muitas vezes, o reflexo da vida, só que em grande estilo, como aqui acontece.
“Os Dias do Nada” mergulha no cansaço e no desgaste coletivo do nosso tempo, oferecendo-nos uma beleza melancólica que serve de espelho para as dores quotidianas. Há nestes (e noutros) temas uma espécie de melancolia quinhentista, cheia de charme, onde o dedo na ferida não a maltrata, antes procura conseguir o milagre de torná-la humana, contribuindo para que possa vir a sarar.
Do ponto de vista sonoro, a grande força do álbum reside no regresso ao conceito tradicional de banda e à partilha com alguns dos seus músicos de sempre. Co-produzido por Benjamim e João Correia, o disco ganha uma riqueza orgânica mais cheia, através das colaborações com músicos excecionais da cena nacional. Destacam-se as participações de Bruno Pernadas, Margarida Campelo e Afonso Cabral. E há outra que, por razões particulares, merece destaque maior. A intemporal Lena d’ Água volta ao convívio com Benjamim em “O Fim da Greve”. É uma bela canção cuja letra, de certa forma, corporiza uma das fortes ideias deste disco, a da relação entre pessoas que convivem, ora afastando-se, ora unindo-se por um bem maior. Lena d’Água e Benjamim parecem não sair do hipocampo um do outro… Ainda bem que assim é. Ao lado de um Apolo fica sempre bem uma presença apolínea.
Instrumentos como a guitarra acústica em “Amor Operário” e as texturas calorosas de faixas como “Cola Quente” e “Medo de Perder” reforçam a sensação de um ambiente acolhedor, apanágio de todo o álbum. O som é limpo de artifícios desnecessários, talvez com a intenção maior de valorizar as palavras e a interpretação vocal.
No seu âmago, como já se inferiu, este trabalho também fala de amor. Não como um ideal abstrato, mas como uma prática diária de esforço, reconstrução e permanência. Como escreveu o velho e bom Vinícius de Moraes, somos todos operários em construção, e a consciência disso é a força motriz da nossa própria liberdade. Um derradeiro reminder: arte é libertação, e assim sendo, vamos à luta com Benjamin! Sem receios, que o homem é de confiança. Com esta banda sonora, a rentrée não custa nada, até porque o nosso bom amigo consegue a proeza de criar um disco que é, ao mesmo tempo, uma ferramenta de forte introspeção, mas também um abraço coletivo. É bom quando os abraços são mais do que o estreitamento dos corpos. Quando juntam causas, afetos mais do que táteis, então o prazer torna-se tão transcendente como sublime.
Crónicas do Monte Zeus está aí à disposição de todos. Saiu hoje para o mundo poder acolhê-lo como merece, e consolida definitivamente o artista como um dos cronistas mais lúcidos, tocantes e consistentes da sua geração.