Entre a dreampop e a britpop ficou perdido um disco de grandes canções que merece ser revisitado.
Em 1995 estávamos provavelmente no pico da britpop. Olhando apenas para este lado do Atlântico, o ano foi riquíssimo com inúmeros discos que são hoje clássicos e que definiriam uma época dourada. Senão atentemos: saiu a estreia dos Supergrass, com I should coco, os Black Grape também se estreiam com It’s great when you’re straight…yeah, os Elastica lançam o primeiro disco, Bjork dá mais um passo na conquista do mundo indie com o seu segundo álbum, Post, os Pulp editam a sua obra-prima, o seminal Different Class, e o movimento conhece o momento que o marcou para sempre, a luta comercial entre os dois pesos-pesados de então: Oasis, com (What’s the story) Morning Glory?, e os Blur com The Great Escape. E, lá por fora, Alanis Morrissette libertava o seu Jagged Little Pill que viria a marcar a época.
No meio de tanta música boa a sair na mesma altura, era inevitável que sucedessem duas coisas: um movimento tão poderoso e tão amplo na indústria discográfica gerou uma corrida às bandas e aos discos, criando abundância; e, naturalmente, muita coisa ficou na sombra das narrativas mais interessantes.
Foi esse o caso da estreia dos fugazes Dubstar, que hoje trazemos à conversa, exactamente para tentar providenciar um pouco de luz sobre um disco que parece ter ficado tristemente esquecido, Disgraceful.
Este foi o álbum de estreia do trio composto por Sarah Blackwood (voz), Steve Hillier (composição e programações) e Chris Wilkie (guitarra). Estes dois últimos haviam fundado o projecto como The Joans, uns anos antes, mas a sorte mudou quando a bonita voz de Blackwood se juntou e mudou o som da banda e quando mudaram o nome para Dubstar, a sugestão do seu agente.
O puzzle ficou completo quando chamaram a atenção da Food Records, uma pequena editora mas que tinha um trunfo de enorme credibilidade: era a mesma que editava os discos dos Blur.
Na altura, o panorama era dominado naturalmente pela britpop, mas a pop electrónica dançável também fazia furor, e era algures no meio destas duas correntes que os Dubstar faziam o seu caminho. No fundo, a receita até era simples: pensar como uma banda de canções pop, com uma aproximação indie-rock mas com execução mais leve e etérea.
Digraceful faz tudo isso com grande mestria. O segredo, que não é segredo nenhum, está nas canções e na forma como Blackwood as entrega. Pegando na tradição de uns Cocteau Twins e abrindo uma via que os Ladytron ou os Glodfrapp viriam depois a escancarar, tudo assenta nas canções e num certo delicioso contraste entre a linguagem pop e um certo negrume britânico por baixo de tudo. Escutando com atenção, tanto encontramos ecos de Smiths como a influência de Bjork ou de Sugarcubes.
Mas já que tantas vezes aqui falámos de canções, concretizemos.
O arranque, com a lindíssima “Stars”, diz-nos tudo aquilo que precisamos de saber. Uma batida arrastada, cordas melancólicas, uma melodia lindíssima, uma canção pop praticamente perfeita.
Ou a fabulosa e simples “Just a girl she said”, uma balada maior que a vida, com Sarah Blackwood a dar-nos logo a abrir a seguinte letra: “it’s alright I’m just a girl, she said, talk down to me and take me to bed, I don’t feel, I don’t think, and I don’t really matter at all“. É uma história tão velha como o mundo, de uma rapariga que apenas procura reconhecimento e uma verdadeira conexão num mundo de homens que a tratam como mais um número na sua lista de conquistas sem significado. Logo à terceira faixa percebe-se que estamos perante mais do que um disco pop bonito, e que por baixo do brilho corre um rio de frustração.
Temos de destacar também a linda e triste “The day I see you again”, sobre o reencontro com uma antiga paixão, carregada de esperança, azedume, arrependimento e rendição. Uma mulher que responde a uma mensagem de um tipo que a havia deixado, e que depois de passar muito tempo a recuperar dessa perda não resiste a voltar a encontrar-se, sabendo perfeitamente o erro que está a cometer. Todo o poder de uma triste canção de amor está aqui.
Há ainda duas versões de temas de outros artistas. A fantástica “Not So Manic Now”, originalmente dos Brick Supply mas que encontra aqui a sua versão definitiva; e a lindíssima balada “St. Swithin’s Day”, original de Billy Bragg, que ganha um passo mais electrónico que lhe cai muito bem.
Estes são apenas alguns dos destaques, com foco nos temas mais emotivos e lentos, a grande força dos Dubstar. Mas há por aqui também muita pop dançável, uma espécie de yin festivo para o yang melancólico, que é na verdade o segredo da banda.
Agora, um factóide curioso: a capa de Digraceful conheceu duas versões. A primeira trazia uma imagem central que lembrava (propositadamente) lábios vaginais, mas pouco tempo depois da edição do disco foi substituída por algo bastante mais consensual para a indústria: uma inocente pantufa em forma de coelhinho.
Os Dubstar ainda lançaram mais uns discos, mas a magia foi-se perdendo. Oficialmente, não acabaram, e quem sabe se ainda terão um último fôlego um destes dias? No fundo, isso não importa. O seu grande contributo está aqui, neste disco esquecido de 1995. Ignorado por tantos, tão estimado por quem teve a sorte de com ele se cruzar e por ele se deixar enamorar, até hoje.