A visceral estranheza dos Vanishing Twin nunca esteve tão pop como agora. Archives é mais uma prova de que, com eles, estamos sempre em casa.
Todos os amantes de música podem perfeitamente assumir, sem qualquer pudor ou problema, que há discos que exigem mais do que uma mera audição. Exigem-nos muito mais do que tempo, como se isso não fosse já muito. Sugam-nos o corpo, a atenção e obrigam-nos à coragem de mergulhar num labirinto onde, por vezes, os sons parecem mover-se à nossa volta, hipnóticos e labirínticos, mas onde, mesmo assim, é bom estar. É precioso, até. Imprescindível, diríamos! É mais ou menos de um disco assim que aqui tratamos.
Ao quinto longa-duração, apropriadamente batizado Archives, os londrinos Vanishing Twin convidam-nos a entrar numa verdadeira cave de memórias analógicas, parecendo um pouco fustigadas pelo tempo. Mas desengane-se quem espera deste álbum um exercício estéril de nostalgia. O que o trio composto por Cathy Lucas, Valentina Magaletti e Susumu Mukai aqui opera é um ritual de desconstrução pop de uma beleza tão magnética quanto profundamente inquietante. Esses são ingredientes perfeitos para que a obra sobreviva ao passar dos tempos, das modas, e que fique, perdurando enquanto durar a magia, que em casos semelhantes a este talvez nunca se venha a esgotar. Não deve ser fácil, para os Vanishing Twin, manter a fasquia da qualidade, após álbuns magníficos, mas estes músicos são mesmo à prova de qualquer disparo mais frouxo. Não há desvios, é tudo na mouche!
Há uma estranheza visceral que percorre cada sulco de Archives. A música, ao que parece, terá nascido de sessões de improviso partilhadas à distância, gravadas em fitas gastas que estalam e suspiram, criando uma névoa densa que se ouve tão bem que, por isso, é quase tátil. O som é habitado por um constante sentido de perturbação, não daquela que nos poderia fazer fugir do álbum, mas de outra, da que nos prende o olhar, num qualquer bonito e moderno museu, quando estamos perante um quadro surrealista, cujas figuras ameaçam ganhar vida, começando por piscar-nos os olhos e, aos poucos, vão ameaçando certos movimentos, como se interessados em escapar às dimensões da tela em que se encontram. Os sintetizadores modulares e as eletrónicas deformadas reagem como organismos vivos no meio de um denso negrume artificial, distorcendo o espaço e o tempo. Mas não tenhamos dúvidas sobre o que aqui ouvimos: é pop, sim, mas pop projetada a partir de uma dimensão paralela, onde as leis da física dos sons parecem há muito revogadas.
No meio deste aparente caos sonoro (talvez haja na palavra “caos” um acentuado exagero), onde os papéis dos músicos se dissolvem e se cruzam sem regras fixas, brilha a imensa beleza das melodias dos Vanishing Twin. Aliás, e voltando um pouco à classificação pop atribuída algumas linhas antes, talvez estes londrinos nunca tenham feito um álbum tão descaradamente assim, embora também nos pareça que mais pop do que isto nunca conseguirão fazer. Ainda bem. Está ótimo assim, é não mexer mais e deixar andar até a uma próxima aventura.
É incontornável, a referência à voz de Cathy Lucas, muito herdeira dos sons, tons e maneiras da voz de Laetitia Sadier, dos Stereolab. Ela surge como um fio condutor etéreo, um farol de esquisita doçura numa paisagem agreste. Canções como “Sugar Stone” oferecem confortos melódicos deslumbrantes, sempre aptos a acariciar o ouvinte, mas que, de súbito, são propositadamente sabotados por fragmentos sonoros erráticos, colagens modernas, pós-modernas e ruídos mecânicos que parecem vir de um laboratório abandonado, que foi ganhando vida sem que saibamos exatamente a razão. E a voz de Cathy Lucas acompanha e potencia tudo isto.
O uso cirúrgico de samplers e as manipulações de estúdio funcionam aqui como pequenos fantasmas na engrenagem. Escutam-se vozes sibilantes ao fundo, batidas que desaceleram de forma quase humana e estilhaços sonoros que surgem do nada, quebrando qualquer tentativa permanente de conforto. Em “Bring Me the Axe”, por exemplo, o que começa como um canto folk primitivo e assombrado (à maneira dos que surgem em The Wicker Man, o fabuloso filme de Robin Hardy), desagua em texturas percussivas milimetricamente talhadas para acentuar o efeito de estranheza. Na verdade, o disco, todo ele, de uma ponta à outra, recusa-se a assentar, a ganhar estabilidade, antes tornando-se num mosaico movediço, feito de pedaços de sonhos e de pesadelos que se vão misturando até ao último sopro de som.
Archives é, em última análise, um testemunho da inteligência coletiva de uma banda que se recusa a pisar caminhos seguros. Ao libertarem-se das amarras das estruturas convencionais, os Vanishing Twin assinam uma obra fascinante, que se alimenta do estranho e do misterioso. Não é um disco fácil, mas com a música, quando ela é verdadeiramente arte, corremos sempre o risco de ganhar o céu. E este céu, por mais nublado e sombrio que pareça, tem fragmentos de luz que nos encantam, iluminando-nos o sorriso, os olhos, o corpo inteiro.