Debut foi um começo extraordinário, humano e prazeroso como poucos. Tem apenas uma ou outra ruga, passadas mais de três décadas, o que atesta bem da sua irrefutável beleza.
Já lá vão muitos anos, mas ainda recordo, embora de forma pouco nítida, diria até algo baça, o dia em que ouvi Debut, o primeiro álbum em nome próprio da menina que liderava os caóticos (mas deliciosos) Sugarcubes, pela primeira vez. Voltar a ele agora, como forma de partida para a escrita deste texto, foi um desafio curioso, agradável e de total nostalgia, “esse desejo insaciável de voltar”, como bem disse Milan Kundera, em A Ignorância. Nessa mesma obra, o autor checo atribuía ao termo uma certa dose de sofrimento. Neste caso em particular, nada registei de aversivo, a não ser o receio inicial de defraudar o prazer lembrado da referida primeira audição. Kundera tinha razão, genericamente falando, mas a qualidade de Debut chutou para canto qualquer carga emocional de desconforto. Fez-me bem voltar a esse lugar de audácia e sofisticação em forma de disco.
No entanto, passaram-se mais de trinta anos. A música mudou (nem sempre para melhor), o mundo alterou-se (para pior, quase sempre) e os meus ouvidos emprestaram a sua sensibilidade a outros caminhos, que se arrepiaram e retraíram assim que os sons iniciais de “Human Behaviour” se fizeram ouvir. Aquela, na verdade, era ainda uma casa que bem conhecia…, e voltei a ela sem dificuldade em encontrar chão e teto, portas e janelas para que o ar entrasse em correntes de emoção descontrolada. De novo, senti que Kundera me piscava o olho, sem qualquer ponta de sobranceria ou altivez. Os mesmos brilhos, a mesma inquietação, a mesma densidade fascinante de uma arqueologia pop que provocou, em mim e ao mundo, um abalo sísmico em formato canção, decorria o ano de 1993. Björk (é-me sempre difícil colocar o trema por cima do “o”) trazia a frescura eletrónica dos clubes de Londres daquela época, cruzando-a com uma mutante sensibilidade jazzística invulgar. Para mais, a ideia que tinha e mantenho é que a islandesa não estava apenas a cantar; estava a inventar uma linguagem própria que, mais tarde, e de alguma maneira, foi usada por outros seus conterrâneos nos seus trajetos musicais. Como não permanecer pasmado com o pulsar dos ritmos e a entrega vocal selvagem e visceral? Alguma da pop contemporânea ainda bebe dessa audácia, que Björk desenhou ali, como se intuísse o brilhante futuro que não tardaria a chegar.
Debut também vive de sofisticação acústica, em certos momentos. A belíssima “The Anchor Song”, conduzida apenas pela voz e por um arranjo de sopros dissonantes, mantém uma forte dose de beleza pura, sobretudo porque nos aproxima de uma certa celestialidade. O mesmo pode dizer-se de “Like Someone in Love”, onde a harpa nos transporta para um espaço intimista que seguramente não pertence ao ano de 93, nem a qualquer outro ano, parecendo existir apenas num vácuo de tempo de transcendência plena.
Contudo, trinta anos dificilmente passam sem deixar rugas, e Debut também paga esse imposto ao tempo. Onde o disco mais se ressente é na produção, especificamente nas faixas mais voltadas para as pistas de dança. A eletrónica de “Big Time Sensuality” ou “Violently Happy”, embora mantenha uma energia contagiante, soa hoje um pouco datada. Os timbres dos sintetizadores e as caixas de ritmos carregam aquela pele muito específica do início dos anos noventa, um som de época que perdeu a capacidade de surpreender e se transformou em nostalgia retro. E aí, sofremos um pouco. (Ok, Kundera, lá terei de me curvar perante a tua sapiência…) A house music evoluiu, os graves ganharam outra espessura e estas faixas, embora seminais, hoje funcionam mais como um postal ilustrado de uma era, do que como música de vanguarda.
Ainda assim, o saldo de Debut é extraordinariamente positivo. O álbum cumpre a função divina de qualquer grande estreia: estabelecer um universo particular! Debut pode já não ser o disco futurista do final do milénio passado, mas continua a ser um manifesto de uma artista que se recusou a ser devorada pela indústria. Num certo sentido, é um clássico imperfeito, sobretudo por ser humano, tão extraordinariamente imperfeito e humano que me enche de maravilha e encantamento. Quase bastava “Venus as a Boy” e “Play Dead” (faixa extra que tenho na minha edição em cd) para me fazer feliz e radiante por ter vivido esse tempo em que a eletrónica deu uma nova esperança aos caminhos da música.
Após terminar a audição completa do disco, lembrei-me que não o tenho em vinil. Sim, eu sou daqueles que tem várias edições de um mesmo álbum, em diferentes formatos, e não me penalizo por isso, mesmo quando reparo que podem ultrapassar a meia-dúzia. Daí que, agora que já não falta assim tanto para que cheguemos àquela fingida e festejada época de plena amizade e contentamento universal, já me tenha precavido com um reminder na agenda sobre prazeres que estão em falta, se é que me faço entender. E agora sou eu que imito Milan Kundera, piscando-vos o olho.