Gostos musicais à parte, há manifestos à liberdade a que todos devíamos aderir. Sem preconceitos, sem julgamento ou discriminação, sem medos nem remorsos. Fizeram questão de dizer logo no início que eles são os Scissor Sisters e nós também. E com ou sem contexto, podemos escolher olhar para esta “Kiki” como uma extravagância inclusiva.
Até a lua cheia parecia convidar o lado mais selvagem de cada um a vir dar uma voltinha cá fora, mas foi o DJ e produtor musical Saint Caboclo que ajudou a puxar a malha aos collants com uma mistura de influências e hits da pop sempre e ainda muito dançáveis, como Madonna e Vanilla Ice.
Nem de propósito, a primeira canção dos cabeça de cartaz veio a ser “I Don’t Feel Like Dancin’”, a partir do qual ninguém ficou sentado. Uma mega tesoura insuflável de fundo e tudo o resto em apoteose de brilhos, figurinos com folhos, cabedal, animal print, adereços, pele à mostra e sensualidade. O popular falsete de Jake Shears e as coreografias de cabaret de Ana Matronic e Amber Martin podiam bem ser o resultado de um remix entre os Abba e os Village People. Pop excêntrico de uma banda assumida e maioritariamente gay, desde sempre ligada à defesa dos direito LGBTQ+ e recentemente em digressão pelo Reino Unido, com paragem pelo nosso Ageas Cooljazz.
Quem veio, sabia ao que vinha e conhecia todos os temas mas, nem por isso, a banda dispensou a apresentação de cada elemento do grupo, exaltando o percurso e performance uns dos outros como um mestre de cerimónias faria a artistas de circo que acabaram de sair da jaula.
Os principais hits da banda, ao longo de 25 anos, estiveram presentes desde o início: “She’s My Man”, “Tits on the Radio”, “Take Your Mama” (mixada com “Freedom” de George Michael), a habitual cover de “Comfortably Numb” dos Pink Floyd, e o badalado “Let’s Have a Kiki”. Um setlist previsível mas fluído onde, como diria a minha dupla da noite (grandes fotos Gonçalo!), está tudo errado e tudo certo ao mesmo tempo. Apesar dos anos e da mediatização, Shears reafirma que não tomam a carreira por garantida e agradecem mais do que uma vez a presença do público.
O encore deixou-nos ainda “Only the Horses”, “Music Is the Victim” e um lembrete de que somos todos Scissor Sisters. Só com base neste concerto, não seria assim tão mau sermos todos um bocadinho.
Fotografias por Gonçalo Nogueira











