Pode a pop de Marisa Monte manter-se fresca e radiante, piscando o olho à música orquestral? Phonica deu-nos, sobre isso, uma claríssima resposta. E nós também.
O namoro entre a música popular brasileira e a música erudita pode muito bem tornar-se um terreno repleto de crateras e armadilhas intransponíveis. A ampla grandiosidade de uma estrutura mais clássica pode ensombrar a naturalidade espontânea do samba ou de um qualquer outro momento musical mais próximo da chamada MPB. No entanto, a tour que Marisa Monte vem fazendo pelo mundo é a prova de que os milagres, pelo menos na música, podem existir, de facto. O que em Phonica encontramos nada mais é (como se isso fosse pouco) do que um bem temperado e refinado milagre de equilíbrio de estruturas musicais muito diferentes. Acompanhada por uma robusta orquestra de dezenas de músicos (55, para sermos exatos), mas também com a sua mais coesa e constante banda de apoio, a cantora carioca entregou um dos espetáculos mais ambiciosos, lúdicos e teatrais da sua carreira. Quem conhece o que Marisa Monte foi fazendo em palco ao longo dos tempos, saberá que não é pouca coisa, o que estas palavras querem dizer. Tudo nos pareceu um sonho, de tão belo e teatral, na bela noite de verão de ontem.
Através da batuta e da perícia do maestro André Bachur, o concerto não se limitou a emoldurar canções consagradas com cordas e metais com pompa e circunstância. Existiu, de facto, um diálogo orgânico durante todo o concerto. A abertura, com a elegante “Vilarejo”, clareou o tom da noite: os arranjos especiais para o evento ditaram a arquitetura original das músicas, sem fazer estranhar a sua essência afetiva e conhecida. Marisa Monte estava deslumbrante, fazendo lembrar Frida Kahlo. Instrumentos de madeira e sopros flutuaram entre as melodias, enquanto que, por outro lado, a banda em palco, liderada por gigantes como Dadi, o eterno Leãozinho, garantiram o balanço e a pulsação urbana que o repertório da deusa carioca naturalmente exige. Para além de Dadi, também Alberto Continentino e Pretinho da Serrinha fizeram-se notar.
A transição para “Infinito Particular” mostrou bem a essência deste projeto, preenchendo o espaço cénico com uma textura densa e hipnótica, onde violoncelos e violinos dialogaram diretamente com a linha de baixo de Continentino. O concerto ia-se revelando cada vez mais espetacular, atingindo um dos seus primeiros momentos esmagadores com “Carnavália”, o clássico da tribo dos Tribalistas. Se na versão de estúdio a faixa já carregava uma carga nostálgica e carnavalesca, aqui a percussão, somada à grandiosidade dos metais, transformou o tema numa marcha triunfal, arrepiando a plateia que a cantou em uníssono.
Aos 58 anos, Marisa Monte reinou com uma presença cénica magnética e uma voz que parece imune ao tempo. O seu canto fluiu com suavidade e precisão cirúrgica, estendendo-se como mais uma linha melódica brilhante no meio da massa sonora orquestral. Ao percorrer mais de três décadas de uma discografia impecável, o alinhamento escolhido foi equilibrando a nostalgia de temas mais antigos, assim como mostrando outros bem mais recentes. Outro dos momentos mais tocantes e intimistas surgiu em “Maria de Verdade”, interpretada com uma delicadeza cortante, assim como na balada “Ainda Bem”, que tem, na sua génese, alguns contornos de clássico cinematográfico de Hollywood, um pouco à maneira de Morricone.
O repertório também abriu espaço para a quase inédita “Sua Onda”, uma composição que prova que o vulcão criativo de Marisa Monte continua inquieto e vibrante. Em clássicos como “Beija Eu” e “Amor I Love You”, a roupagem orquestral amplificou as boas memórias que delas temos. São canções já cristalizadas no imaginário popular brasileiro, bem como na nossa lusa memória, e ressurgiram frescas, grandiosas, revestidas de uma nova vibração artística e poética.
Não há dúvidas de que o grande trunfo de Phonica reside na sua capacidade de transformar o erudito em algo profundamente íntimo e acessível. Não há, digamos assim, distanciamento académico e a sofisticação da partitura serve, sobretudo, para potenciar a emoção. O público, longe de se comportar como uma plateia passiva, transformou-se num coro arrebatador. “Panis et Circenses” foi disso um extraordinário exemplo!
Na reta final, quando começava a surgir um sentimento de despedida, a catarse da alma pareceu inevitável. A rendição, essa, foi absoluta. O encerramento do concerto é um tributo à própria história da MPB. “Não Vá Embora” foi inesquecível, até para Arnaldo Antunes, que estava presente no recinto e que mereceu uma estrondosa salva de palmas. Depois, ao resgatar a imortal “Carinhoso”, de Pixinguinha, Marisa uniu o passado e o presente da música brasileira num arranjo de cortar o fôlego. Terminou, pois claro, com “Bem que Se Quis”, apenas acompanhada pelo público. Foi milagroso!
Uma última nota, antes do ponto final: ao fundir com rigor e delicadeza dois universos aparentemente distintos, Marisa Monte não só reafirmou o seu estatuto como uma das maiores intérpretes e compositoras do Brasil, como também nos ofereceu uma experiência estética inesquecível, onde a sofisticação caminhou de mãos dadas com a emoção, sempre de raiz tão popular. Um espetáculo definitivo, coeso e imperdível! Marisa desceu do monte olímpico onde artisticamente habita, juntando-se a nós da forma mais humana possível, com música que sorri e encanta, ao mesmo tempo que nos abraçou de forma fraterna. Marisa, I love you!
Fotografias de Felipe Kido













