O funaná de Silvino Branca chegou a Marvila com a força de um pulso acelerado, guiado pela concertina em alta rotação e por ritmos quentes que tomaram conta da sala.
Silvino Branca não é, à partida, o que se esperaria numa programação da Cuca Monga para a Casa Andante. A noite abriu com os sons quentes e ritmados do funaná, a rasgar o registo mais alternativo e rock que costuma marcar o espaço. Mas isto não é uma crítica, antes pelo contrário. A surpresa foi precisamente o motor da noite.
O nome, ainda pouco familiar para parte do público lisboeta, somado à data (uma sexta‑feira de Julho) e ao Mundial ainda a decorrer, pode ter afastado o habitual público da Musa de Marvila. Mas a entrega com que Silvino Branca tomou o palco foi daquelas que poderia alimentar o FOMO de muita gente. (Se o concerto tivesse coincidido com a última presença de Cabo Verde no Mundial, a festa teria sido outra, acreditamos.)
Mas vamos por partes. Quem é Silvino Branca? Natural da Ilha de Santiago, Silvino Branca é tocador de concertina e uma das figuras mais marcantes do funaná moderno. O seu estilo acelerado, imprevisível e de forte teor interventivo ficou conhecido como Kotxi Pó, uma assinatura musical e também uma declaração de intenções.
Apesar da pouca adesão, quem esteve soube ocupar o espaço como se a sala fosse maior do que realmente é. Desde os primeiros compassos, o funaná tomou conta de tudo com uma energia que não pede licença. A concertina de Silvino Branca dispara ritmos a que o nosso corpo responde, ainda antes da nossa cabeça perceber. Os pés mexem inadvertidamente, o tronco cede ao balanço (todos nós conhecemos este tique do corpo). Torna-se libertador quando nos deixamos seguir pelas notas da concertina do músico cabo-verdiano.
Há algo de profundamente comunitário na forma como o funaná se instala. Não é apenas música: é um chamamento. E Silvino Branca sabe exactamente como conduzir esse ritual. Entre acelerações repentinas, improvisos e pequenas provocações ao público, constrói uma narrativa que é tanto festa como afirmação cultural.
Uma noite que foge ao esperado, e ainda bem. A programação da Cuca Monga tem sido um espaço de descoberta e risco. Trazer Silvino Branca para a Casa Andante é um desses gestos que mostram que a curadoria não vive apenas de coerência estética, mas de vontade de abrir portas. E quando essas portas se abrem para ritmos que carregam história, território e resistência, o resultado é sempre positivo e surpreendente.
Fotografias: Rui Gato























