Habituada a sons e coreografias mais redondas e melodiosas, a sala do B.leza viu-se invadida por belas criaturas vindas dos subsolos da Grande Lisboa. Mordo Mia, canalzero e Heroína trouxeram pop, rock, hardcore, jazz, punk, distorção e muitos sorrisos largos.
“Obrigada. Muito obrigada. Agradeço… mas será que me posso voltar a vestir?”
A, B, C, D, Eis os Mordo Mia em palco, para abrir a noite, o público, as colunas. Músicos de conservatório e autodidactas de youtube, compõem soft rock alternativo e restantes chavões que fizerem questão de acrescentar, são decididamente habilidosos em apresentação, ritmo, variedade de composição e sarcasmo. Como exemplo, “EB -2, -3” corre o abecedário mas também há opções para quem aprecia velhinhos, gatinhos e momentos solenes. Em palco a banda (des)enrola-se lentamente, em curva sobre si própria, como o pavio demasiado longo de uma vela acabada de acender. Antes mesmo de começar a derreter cera, Ana Eduarda (violino) já é labareda balançando com o calor. Bernardo Pereira (bateria), Simão Bárcia (guitarra), António Amoêdo (baixo) e João Roque (voz e teclas), alargam a base do lume e tudo o que se ouve parece ora alumiar suavemente a sala, ora lançar chamas sobre o público. Delico-doce é insufuciente para adjectivar as histórias canção, pois que sátira e ironia fizeram sempre parte do enredo.
Valeu a pena esperar por Janeiro, Fevereiro, Março… Maio 2026, para ouvir Chumbo Côncavo ao vivo no B.leza. Este é 2º disco da banda, com 8 temas publicados em Outubro de 2025, depois de outros 7 em Sente-se Primeiro (Maio 2023). As letras terão tanto de esquizofrénico como a voz de João Roque, que circula consciente e inesperadamente entre os modos veludo, hard core, drama queen. Em bom, acreditem, em bastante bom. Contradições em harmonia e entrega em equilíbro, que boa surpresa.
Após meia hora de intervalo para arejar os fumadores e trocas de material, Bernardo Ramos entra vestido com o seu mais fofo roupão turco cor de rosa e uma boneca insuflável a braços (a nudez também pode ser de plástico), e há vários fãs conhecidos na plateia. Cada músico tem uma vibe muito própria e o conjunto resulta bem musicalmente. Ah, e para que “fiquemos todos bem esclarecidos, o nome é: canalzero”. Respect. Pop rock afinado, com corpo, estrutura … e muita alma!
Bernardo, estás lá. Estiveste lá. Para lá dos temas que já conhecíamos das plataformas e de outras noites – “De Plástico”, “Mazelas”, “Babsi” e, claro, o hino “Popstar” – houve lugar a muitas estreias e, sobretudo promessas! Esperam-se mais temas novos e uma primeira rodela de longa duração … que muito queremos ouvir! Nós e, com toda a certeza, todas as belas almas que compunham o B.leza com rasgados sorrisos e em plena desbunda.
Nova pausa para arejamento e, sobretudo, para a necessária (des)compressão. É que mesmo que já tivéssemos tido direito a breakdowns quase metálicos e a distorção a rodos, ainda não tínhamos ouvido uma nota que seja de Heroína! Já tínhamos tentado, mas incompatibilidades de agenda ainda não nos tinham permitido experimentar. Tal como os Prado ou os Varge Mondar, mesmo ainda sem registos discográficos, andam a causar alvoroço pelas franjas mais “pesadas” da nossa comunidade underground. Pelo que pudemos testemunhar, é um alvoroço mais do que justificado … agressividade sónica da melhor estirpe, porrada da boa! Post-harcore, noise e uns pózinhos mágicos de art-qualquer-coisa-ainda-por-decifrar enfeitiçam-nos os ouvidos, com a guitarra (a sério que era mesmo só uma?) de Martim a colar os outros 3 vértices da banda como um maestro a fazer malabarismo com 3 tesouras de poda mega afiadas: a bateria viciante a que Vasco nos tem habituado em Reia Cibele, Mouthful of Grief ou Bas Rotten, o baixo tresloucadamente vibrante do Miguel e as vozes libertinas e libertárias do Francisco. Vamos precisar de ver e ouvir melhor estes quatro, o trocadilho é óbvio, sabemos isso, mas … estamos viciados.
Texto: Marta Costa e Rui Gato, fotografias de Rui Gato



