O concerto que Gilberto Gil deu no Coliseu do Porto será arquivado numa gavetinha especial no cérebro, já que foi daqueles que ficam colados à memória, como a insistência de um refrão que teima em não abandonar.
Numa noite de casa cheia, havia um certo elefante na sala: diz-se (bem, sabe-se) que Gilberto Gil está em tournée de despedida. Sabe-se, mas não se quer acreditar. Mas isso trouxe ao Coliseu uma clara consciência coletiva de que aquela noite importava muito, e que era melhor vivê-la bem.
“Expresso 2222” abriu a noite e o público ouviu primeiro, em silêncio quase reverencial, antes de, a meio da música, se deixar levar e começar a cantar alto. Não foi uma rendição imediata, foi uma entrega progressiva, que é a mais bonita de todas. Seguiu-se “Viramundo”, com o palco mergulhado numa luz intimista, e a sala em silêncio total, focadíssima em Gil. Havia uma concentração ali que se sentia na pele. E depois um berro. E depois outro. E depois a avalanche.
Gil cumprimentou finalmente o Porto com a generosidade de quem sabe exactamente onde está e porquê: “Estamos aqui por causa de vocês”, disse. Explicou que começou com duas canções diretamente ligadas à música nordestina brasileira, antes de anunciar a viagem pelo samba. A grande sala do Porto estava, assim, nas suas mãos.
“Chiclete com Banana” chegou com um “Quero escutar vocês!” e a plateia não decepcionou. Em “Upa Neguinho”, para relembrar a grande Elis Regina, toda a gente cantou, mas nunca mais alto do que ele. Havia uma espécie de acordo tácito na sala: deixar sempre que Gil fosse o maestro. Que ele conduzisse. Que ele decidisse o ritmo dos berros e das palmas. Porque Gil foi, literalmente, quase o inventor desta forma de dirigir uma multidão com o corpo e com a voz e eu não consigo imaginar mais ninguém a fazê-lo com tanta naturalidade.
“Ladeira da Preguiça” e “É Luxo Só” foram sambas que trouxeram danças mesmo com o público ainda sentado nas cadeiras. Um solo de bateria do neto homónimo do artista fez a sala vibrar com uma energia muito carioca que parece atravessar o Atlântico em segundos.
Depois chegou “Garota de Ipanema” mas não como se conhece. Gil tinha avisado: “Tivemos a ousadia de a tratar de uma maneira não ortodoxa, com um certo acento de reggae.” E foi exatamente isso. Flor, neta de Gil que o acompanha e faz parte da banda, cantou, tocou piano, e a sala rendeu-se à versão com sorriso nos lábios. Um sorriso de quem está a ver algo familiar a transformar-se em algo novo, sem deixar de ser bonito. Flor continuou a cantar em “Estrela”, que abriu a pista para as mais emotivas da noite. Gil apresentou este tema com ternura: uma canção inspirada pelo nome da filha de um grande poeta amigo seu. Após cantar sobre os astros, ficou sozinho em palco a afinar a guitarra, num silêncio que a sala respeitou com solenidade.
“Tempo Rei” trouxe o filho Bento ao palco. Pai e filho. Toda a gente esperava este tema. Toda a gente a cantar. Toda a gente emocionada. Havia qualquer coisa de muito completo naquele momento. Uma vida inteira de música a condensar-se em poucos minutos, num tema que explica a inevitabilidade que o tempo traz.
E depois, de repente, Gil levantou-se pela primeira vez na noite, pegou na guitarra e o Coliseu enlouqueceu. “Porto, canta comigo!”, pediu em “Palco”, e o Porto cantou e pôs o “inferno fora dali” com toda a animação, tal como pede a música. O Porto continuou a cantar. Cantou em “No Norte da Saudade”. Cantou em “Vamos Fugir” desde o primeiro verso. E cantou em “Andar com Fé”, motivado por um “Quero ouvir, Portô!” que Gil lançou e que a sala devolveu triplicado.
No meio do caminho, houve espaço para “Babá Alapalá” onde o cantor relembrou que “a música popular serve para a gente se divertir”. Houve “Touche Pas à Mon Pote”, inspirada pelo movimento SOS Racisme, em França. E houve, ainda, “No Woman No Cry” com Flor a transformar o piano num órgão de igreja, transportando a plateia para um ambiente de devoção, seguida de uma explosão do público no final que não deixou dúvidas sobre o estado de graça colectiva em que todos nos encontrávamos.
Antes do encore, “Aquele Abraço” fez o Coliseu bater com os pés no chão para Gil voltar ao palco. E Gil voltou a correr, entre berros ensurdecedores. “Muito obrigado! Duas mais, ok?”. E ainda que soubesse a pouco, o público concordou. “Madalena” e, para fechar, “Atrás do Trio Elétrico”, com um último “Canta, PORTÔ!” que a cidade cumpriu. Com vontade. Com tudo.
Saí de lá muito feliz, apesar de sem saber muito bem se o concerto foi ou não uma despedida. Gil nunca o disse claramente e talvez seja melhor assim. Porque se foi, foi a melhor despedida possível: cheia de vida, de samba, de reggae, de família em palco e de uma cidade inteira a cantar em uníssono. E se não foi, ainda melhor.
Texto de Rita Matos Braga e fotografias de André Gomes












