Pode uma banda de Chicago encarnar os Smiths e ainda assim fazer um grande disco de canções pop? Yes, we can!
A história da pop está cheia de auto-referências, ciclos que se repetem, clichés e modelos reutilizados para novos ou velhos propósitos. Se tudo está inventado (atenção, não está), estaremos condenados a andar em círculos, com a diferença a ser marcada não pela originalidade mas sim pela qualidade e pela inspiração? E será que é possível uma banda de Chicago citar os Smiths sem cair no ridículo?
Vem esta conversa a propósito de Irreversible, o novo e segundo disco dos Brigitte Calls Me Baby, banda de Chicago que está a fazer ondas pela cena indie e a trazer de volta um som que parecia ter sido abandonado.
O grupo é marcado e dominado pelo vocalista e ator Wes Leavin, que logo no arranque do disco, em “There Always”, nos atinge em cheio com o som de…Morrissey. Os Smiths tiveram a sua quota-parte de imitadores, à cabeça os bem razoáveis Gene, mas há muito tempo que não aparecia alguém com um tom de voz e um estilo de canto tão semelhante a Mozz.
Dito isto, e logo a abrir, é fácil e tentador ficarmos por esse curioso exercício de comparação e isso concentrar toda a nossa atenção. É compreensível porque a referência é, de facto, óbvia, mas repetidas audições deste Irreversible acabam por provar que há aqui muito mais do que referências certeiras e de primeira água.
Sim, “There Always” é completamente Morrissey da primeira fase a solo. Sim, “I danced with another lover in my dream” começa com um riff de guitarra que nos atira para os Cure da viragem dos 80´s para os 90´s. E sim, “Slumber Party” parece um estranho universo alternativo em que os Strokes trocaram Julian Casablancas pelo vocalista dos Smiths.
Tudo isso é verdade, mas não é toda a verdade. É que estas três músicas, que abrem o disco, são simplesmente grandes canções pop.
Aquilo que define o som do disco é, além do estilo crooner e intenso do vocalista, uma grande carta de amor à pop jangly dos anos 80, suportada por canções que são maiores que a vida, ou que pelo menos para aí atiram. Há em todo o trabalho um dramatismo, toda uma entrega, que procura fazer um disco que possa mudar a vida de quem o ouve. Não há aqui nada do cinismo blasé ou bacoco de tanta música de hoje em dia. Os Brigitte calls me baby quiseram dar-nos um álbum que pode servir de companhia para o momento em que nos apaixonamos, em que desesperamos, em que sofremos, em que estamos perdidos e precisamos de uma esperança. Ou seja, todos os ingredientes que constroem aqueles discos que nos acompanham e que se recusam a ser apenas mais um, o que é refrescante num mundo cada vez mais cheio de slop descartável.
Se o arranque é fortíssimo, o nível não baixa muito depois disso. “The Pit” diminui o ritmo e constrói uma balada negra com sintetizadores 80’s (com pouco azeite, juro!); “Truth is stranger than fiction” volta a lembrar-nos os Strokes mas com uma prestação vocal ainda mais confiante e desbragada, que pode incomodar ou conquistar, em mais um grande single pop; “These acts of which we are designed” lembra o som dos new romantics sob um véu escuro e elegante.
Depois do breve interlúdio instrumental de “Sillage”, Irreversible entra no seu troço final, sem qualquer tiro ao lado até aqui. “I can’t have you all by myself” é mais uma balada, desta vez a lembrar-nos os tempos de Strangeways here we come; “I can take the sun out of the sky” volta às guitarras Strokes, mas mais próximo da fase actual, em mais uma bela canção, mas desta vez soalheira; “The early days of love” é Smiths em estado puro; e o fecho, com “Send those memories” acaba num registo quase de balada épica, com guitarras brilhantes e lindíssimas.
Temos, perante nós, uma banda com várias características que podem fazer dela um caso sério, acima de tudo uma grande capacidade para fazer grandes canções que nos soam familiares e viciantes à segunda ou terceira escuta e um vocalista inquestionavelmente carismático.
O grande desafio é conseguirmos avaliar os Brigitte Calls Me Baby sem estarmos permanentemente a cair no jogo das referências que eles tão evidentemente carregam. Não é fácil, mas sem isso não conseguiremos desfrutar de Irreversible por aquilo que é: um grande disco cheio de belas canções.