Reportagens

Sharon Jones & The Dap Kings || Aula Magna

Sharon Jones só pode crer num Deus que dance. Aos 58 anos, Jones continua uma verdadeira dinamite em palco, fazendo casar cada nota da sua inqualificável voz com o ritmo incansável do seu metro e meio de altura. E nós, na plateia, aproveitando as últimas horas de um domingo que costuma ser preguiçoso, até saltamos da cadeira, cheios de energia. Dançamos com ela.

Dançámos o twist, o jive e até o boogaloo. Ensinou-nos o funky chicken, o mash potato e o dapking step. Também nadámos, crawl, costas e mesmo bruços. A ex-guarda prisional puxou pela plateia e chamou por diversas vezes ao palco aqueles que mais se aplicavam na sua missão. Demos o nosso melhor para acompanhar tanta energia, tivéssemos todos metade do jeitinho e da garra que ela tem, repito, aos 58 anos.

Os The Dap-Kings fizeram as honras da sala e aqueceram um público que fez questão de receber Miss Sharon Jones de pé. Abriu com «Retreat», o single de Give The People What They Want (de Janeiro deste ano) e, a partir daí, o groove, a soul e o funk tomaram conta de uma Aula Magna bastante composta. Som puro e cru, melódico nos tempos certos, irado quando se justificava. Vibrante. Conquistador. Uma banda da velha guarda como já não há muitas, musicalmente magnífica e concentrada para que toda a improvisação de Sharon Jones pudesse brilhar em plenitude.

O momento alto do concerto deu-se com «Get Up And Get Down». A vocalista fez questão de avisar que ia soar diferente do álbum. É que Sharon Jones venceu a dura batalha contra o cancro no final do ano passado e esta música ganhou um significado diferente: a vida pode ser madrasta, mas é preciso acreditar e celebrá-la. Esta versão tinha ainda mais garra, positivismo e energia. Jones deixou ali tudo o que tinha e até se descalçou para poder dançar e sentir melhor aquele momento. Era o último concerto de uma digressão intensa para Sharon Jones & The Dap Kings. Confessou-se cansada, mas queria fazer daquela noite uma actuação memorável. Porque o disco teve de sair mais tarde devido à doença e porque sem o apoio dos The Dap Kings e do público ela teria perdido as forças e não estaria ali. Agora, segura, grita: «everything is going to be allright».

O resto? Só mesmo presenciando. Uma voz abençoada por todas as alminhas. A capacidade que ela tem de nos contar histórias a cantar arrepia qualquer um. Na sua igreja, as pessoas cantam e gritam e ela estava a li a cantar e a gritar, brilhante. Para os que se deixaram dormir há uma boa notícia: parece que Sharon Jones & The Dap Kings não vão ficar por aqui. A má notícia: o concerto já aconteceu.

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Fotos: Duarte Pinto Coelho

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