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Em câmara lenta como na TV: a história dos GNR

Os GNR foram paus para toda a arte e começaram a afirmar-se na idade da pedra do boom do Rock Português: sobreviveram a modas, estilos, tempos de supremacia e outros de algum esquecimento. De tal modo que hoje todos lhes devemos vénias e encómios, fazendo da sua pronúncia do norte um território transversalmente nacional.

GNR. Não confundir com os gordos de bigode. Quer dizer: “Grupo Novo Rock”. Faz-lhes impressão trabalho mas, a brincar a brincar, já cá cantam 38 anos de carreira, 12 LPs e um cancioneiro que dá para encher vários estádios de Alvalade. Foram tudo: putos do boom do rock, patronos da intelligentsia alternativa, reis e rainhas da pop. Hoje, a par com os Xutos & Pontapés, são uma instituição. Onde Xutos são povo e rock’n’roll, os GNR são burguesia e arte pop. Sofisticação e ironia com pronúncia do norte. Contemos a sua história, sem pressas; em câmara lenta como na TV…

A persona de Rui Reininho é tão central na identidade dos GNR que é fácil esquecer que tudo começou sem ele. Foi em 1980, no Porto, que Vítor Rua, Alexandre Soares e Tóli César Machado formaram os GNR. Acontece que este trio fundador sempre andou às cabeçadas quanto ao rumo estético a seguir, o que ocasionou sucessivas fracturas até apenas sobrar Tóli. No entanto, como iremos ver, todos ficaram o tempo suficiente para deixar pegadas indeléveis na obra da banda. Nenhuma história dos GNR poderia ser escrita excluindo um dos três.

Em Março de 1981, Portugal enamora-se pelo single “Portugal na CEE”, cantado ainda por Alexandre Soares. Lançado em pleno boom do rock português, o tema faz furor nas discotecas de então. Em Outubro, o single “Sê um GNR” segue o mesmo trilho punk pop, música de garagem cheia de candura e tusa adolescente.

Alexandre Soares com uma boina da GNR. Vítor Rua na segunda guitarra.

Mas os putos cresceram e a entrada de um frontman maior do que a vida ajudou. Rui Reininho é: acrobata das palavras, louco arlequim, anarco-céptico, intelectual que zomba da erudição, David Byrne da Ribeirinha. Quando em 1982 gravam o primeiro LP, Independança, já se encontram noutro lugar estético, mais sofisticado e com menos apelo comercial. Nesta altura, é a personalidade de Vítor Rua que domina a direcção criativa, com a maior parte dos temas escritos por ele, e a sua sensibilidade vanguardista a dominar todo o lado B (o seminal “Avarias”). Miguel Megre também deixa uma forte marca, espalhando cor e imaginação melódica pelos teclados. Este disco é incrivelmente influente: a sua matriz (tão arty e experimentalista como dançante e divertida) influenciaria nomes como os Mler Ife Dada e os Pop Dell’Arte. Vítor Rua foi tão longe em querer impor a sua visão avant-garde que acabou por ditar a sua tempestuosa saída. Formaria os Telectu com Jorge Lima Barreto, deixando-nos uma obra tão difícil como fascinante.

Em 1983, o baixista Jorge Romão entra para o lugar de Vítor Rua (integrando os GNR até hoje e assinando muitos dos seus clássicos). Ainda vai a tempo de participar num dos discos mais interessantes dos GNR: o máxi-single Twistarte. Nunca o pós-punk soou tão doce e sumarento.

Em 1984, lançam o segundo LP: Defeitos Especiais.  É um momento democrático, em que Alexandre Soares e Tóli conseguem construir consensos. A estética já não é tão radicalmente experimentalista como em Independança mas continua à margem do mainstream. É o disco gótico dos GNR, devendo muito ao negrume dos Joy Division. No entanto, vão muito para além da mera cópia, mesclando as referências britânicas com uma forte identidade portuguesa (“Pershingopólis” brinca com o corridinho algarvio; “Muçulmania” ficaria célebre por citar o clássico de Amália “Canção do Mar”). Nesse sentido, todas as bandas que enxertam pop/rock anglo-saxónico com música popular portuguesa (Sitiados, A Naifa, Dead Combo, Diabo na Cruz…) devem alguma coisa a Defeitos Especiais. “Piloto Automático” tornou-se um hino da boémia dos eighties. Quem não conhece os versos “whisky puro, vodka, vodka, sangria”, não esteve lá…

Em 1985, sai para os escaparates o terceiro LP: Os Homens não se Querem Bonitos. É um disco dominado, na composição e nos arranjos, por Alexandre Soares. Os sintetizadores de época abundam, e Soares não hesita em cortar cabeças com eles. Pode não ser tão coeso esteticamente como Defeitos Especiais mas tem uma vantagem: é mais original, libertando-se das fórmulas do pós-punk. O arrojo alternativo mantém-se mas uma sensibilidade mais pop começa a insinuar-se. É o caso da soalheira “Dunas”, uma balada à Buddy Holly que todos sabemos de cor. A portugalidade continua presente, especialmente no synth-fado de “Sete Naves”, o grande tema épico dos GNR.

Homens temporariamente sós.

Mas em 1986 sobem a parada com Psicopátriaa sua obra-prima. Tem a coesão de Defeitos Especiais e a originalidade de Os Homens não se Querem Bonitos. Desta feita, é Tóli César que está ao leme, assinando a maioria dos temas. Nunca antes os GNR haviam conseguido um equilíbrio tão perfeito entre irreverência estética e o formato-canção. “Pós-Modernos” é um instantâneo perfeito do Portugal “modernaço” dos anos 80. Um português que não saiba cantar “Efectivamente” merece ser expatriado. O instrumental “Coimbra B” é triste e saudoso, a espuma que resta das ternas horas do passado. Em “Bellevue”, o sentido de humor de Reininho é deliciosamente negro: “Os meus amigos enterrados no jardim / E agora mais ninguém confia em mim / Era só para brincar ao cinema negro / Os corpos no lago eram de gente no desemprego”. Alexandre Soares sente que perdeu o braço-de-ferro criativo para Tóli e acaba por sair da banda. Fá-lo sem azedume, simplesmente canalizando o seu bom gosto e inquietude criativa para novos projectos. Formará, em conluio com Ana Deus, os Três Tristes Tigres e os Osso Vaidoso.

Feitas as contas, dos três inventivos fundadores, só resta agora Tóli. É o fim de um ciclo e os fãs perguntam-se se isso afectará os seus GNR. Respiram de alívio quando em 1988 assoma o máxi-single “Vídeo Maria“. Que canção tremenda, meus amigos, e talvez a letra mais perfeita de Reininho: “sentada, imóvel, fumando em frente ao altar / silhueta, esboço, a esfinge de um anjo fumegante / há em mim um profano desejo a crescer”. A rádio Renascença censurará a blasfémia…

Um ano depois, os GNR regressam, desta feita para um longa-duração, uma espécie de policial negro chamado A Valsa dos Detectives. Zezé Garcia, dos Mler Ife Dada, substitui Alexandre Soares na guitarra, e repartirá a autoria das canções com Tóli e Jorge Romão. O álbum é mais introspectivo do que Psicopátria, mas o melodismo pop permanece. O single é o icónico “Morte ao Sol”; preferimos, contudo, a perfeição pop de “Impressões Digitais”. O tema homónimo é uma valsa linda de morrer, um carrossel à Jacques Brel, girando cada vez mais depressa. Os refrões implacáveis de “Falha Humana” e “Dama ou Tigre” matam primeiro, perguntam depois.

Rui Reininho, Zezé Garcia, Jorge Romão e Tóli César Machado.

A década de 90 começa da melhor forma para os GNR. Aproveitando o pretexto de divulgar o novo LP, descem ao Coliseu de Recreios para duas noites memoráveis, registadas no duplo In Vivo. É delicioso ouvir Reininho declarar “morte ao sul” em plena boca do lobo. O disco é um sucesso tremendo, com duas platinas no bucho. Ninguém pára o Grupo Novo Rock.

Mas os GNR ainda não tinham chegado ao topo. Faltava uma última jogada, um novo LP chamado Rock in Rio Douro. Agora, sim, têm Portugal completamente a seus pés, arrecadando 4 platinas e 40 mil almas no Estádio de Alvalade! A sonoridade é mais roqueira, com todos os clichés do classic rock, uma imensa ironia numa banda que sempre se definiu contra a cultura do rock. Em “Pronúncia do Norte”, Reininho suspende o seu crónico sarcasmo e oferece-nos uma homenagem séria, quase cândida, às gentes da sua terra. A imaginação melódica é inegável (parece uma colectânea de singles) mas há demasiado açúcar em temas como “Sangue Oculto” (não se o aconselha a diabéticos). O clímax da carreira dos GNR coincide com um certo aburguesamento criativo. Diagnóstico a relativizar: daria o meu braço esquerdo para ter escrito “Ana Lee”…

Até que, no ano de 1994, uma onda de ar sereno varre a inspiração dos GNR e o que se ouve em Sob Escuta é já o lado B de um percurso iniciado em 82. O álbum, no entanto, é considerado pelos integrantes da banda como o seu melhor até à data. Seja como for, o fenómeno da popularização dos GNR fez com que se retraíssem, evitando novos “Alvalades”.  Sob Escuta traz o tema “+ Vale Nunca”, hino instantâneo que perdura até aos nossos dias. Traz ainda “Las Vagas”, outra óptima composição de refrão poderoso e certeiro. Mas, de resto, pouco ficou para a eternidade, tal o eclipse sonoro provocado pelo seu primeiro single.

Os GNR em modo “Reservoir Dogs”.

Em 1998, com Mosquito, rompem com o passado de cariz mais pop e tornam-se mais adultos do que nunca. É um óptimo disco mas implica audições mais profundas. “Tirana” e “Cais” têm bonitas melodias; “Saliva”é a balada perfeita, a canção dolente que toca o ouvinte como nenhuma outra. Os GNR estão capazes de explorar outros caminhos, abrir outras asas, voar mais alto rumo a outras direcções. Talvez seja essa a metáfora escondida no nome do disco.

Popless surge na virada do século e começa com mais um hit imorredouro: o próprio tema-título. O álbum é luso-brasileiro, desde logo pelo produtor escolhido. Nilo Romero é um nome emergente e incontornável desse tempo (havendo já trabalhado com o mítico Cazuza). Como se fosse pouco, Sacha Amback, um génio das teclas, também alinha no mesmo time, sendo que a cereja no topo do bolo dá pelo nome de Jacques Morelenbaum. O disco só poderia sair excelente, tal a mão cheia de respeitáveis ingredientes em uso. Destacam-se as canções “Popless”, “Asas”, “Bem Vindo ao Passado” e “Essa Fada”, tema em que a voz de Rui Reininho soa como nunca. Seria possível manter nos tempos seguintes uma criatividade tão refinada? A resposta deu-se com Do Lado dos Cisnes, e não foi a melhor. Pelo meio, entre os dois discos de originais, houve tempo para Câmara Lenta, espécie de compilação das baladas mais orelhudas.

Mas voltemos a Do Lado dos Cisnes para salientar algum abaixamento de forma, apesar de boas malhas de rock no seu sentido mais puro (sem a farinha pop que tantas vezes lhe serve de fermento), como “6ª Feira (Um Seu Criado)”, “Morrer em Português” ou “Tu Não Existes”, todas com níveis satisfatórios de adrenalina e rebeldia sonora. No entanto, falta rasgo, falta génio onde sobejam vigor e pujança. Não é um mau disco (isso nunca os GNR souberam fazer), mas Do Lado dos Cisnes estará sujeito a algum esquecimento.

Os GNR hoje: Rui Reininho, Tóli César Machado e Jorge Romão.

Em 2006, nova recapitulação da matéria dada com O Melhor dos GNR – Continuação, Vol. 3, onde se destaca a bem conseguida versão do clássico de Roberto Carlos “Quero Que Vá Tudo Pró Inferno”, que fez com que a banda ganhasse o impulso que faltou ao seguinte Retropolitana. Nesse disco de 2010, nem o single “Reis do Roque” conseguiu elevar a obra ao patamar desejado. Quanto às restantes 11 canções, nenhuma se ergue acima da mediania. Apesar de tudo, é preciso reconhecer que é um disco divertido. Os títulos de alguns temas revelam esse lado risível, como acontece com “Clube dos Encalhados”, “Aitunes” ou “Baixa / Chicago”, mas é pouco para o que se espera e deseja de um disco de Reininho, Tóli e Romão.

No ano seguinte, outra data se impunha, e os GNR ganham novo fôlego na regravação de alguns dos seus clássicos com novas roupagens acústicas. 30 anos de carreira dão origem a Voos Domésticos, disco que entrou directamente para o primeiro lugar do Top Nacional de vendas. As “hospedeiras” (como se dizia noutros tempos, em que a semântica era mais livre e menos politicamente correcta) que surgem na capa poderão ter ajudado à festa, de tão bombásticas e fotogénicas.

Finalmente (embora não se deseje o fim!), os GNR lançam Caixa Negra, e de novo o imaginário da aviação aterra nos nossos ouvidos. Aterra, e bem! O disco, de 2015, é um regresso à forma. Forte, coesa, rápida e certeira (à maneira de um velho e bem conhecido cowboy do nosso imaginário desenhado), a banda dispara hits como “Caixa Negra” ou “Cadeira Eléctrica”, mostrando ainda bom acerto em temas como “Dançar Sós” ou “MacAbro”.

Os próximos tempos trarão novidades. O novo tema (“Quem?”) já se conhece e tudo está de novo em jogo. Os GNR andam nesta vida “sem correr e sem saltar” há muitos e bons anos. Nós, os indefectíveis, andamos com eles e com eles trilharemos os caminhos que nos forem apresentados; até porque o “sangue oculto” que nos une parece-nos bem longe de uma qualquer ruptura de stock.

Texto: Ricardo Romano e Carlos Vila Maior Lopes

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