São 35 anos de vómitos e lágrimas a ouvir Green Mind, o primeiro álbum da banda numa grande editora. O único problema? Em 1991, eles mal eram uma banda.
O álbum anterior, Bug, marcou não só o final dos Dinosaur Jr. nas ligas independentes como a expulsão do baixista Lou Barlow e um ponto final no trio original. De acordo com J Mascis, guitarrista e líder com punho de ferro, a banda não tinha mais objetivos para além de chegar aos quadros da SST Records – algo logo alcançado em 1987.
Por outras palavras, é o equivalente a ganhar o Monopólio pouco depois de se passar pela casa de partida e, conhecendo a SST, sem receber os 200 dólares.
Entre uma digressão claustrofóbica, ainda em 1987, que acaba com uma carrinha avariada do meio de nenhures, em Mountain Home, no Idaho, com um recurso limitado a baldes de KFC e visionamentos excessivos do que quer que o videoclube local tivesse em stock, o que geralmente oscilava entre o lindíssimo e parisiense A Little Romance e o grotesco Faces of Death, a desintegração da banda original explode num turbilhão de fragmentos dolorosos. Entre Lou Barlow a roer a órbita do olho de um boneco do Monstro das Bolachas de J, a uma luta entre os dois no meio de um palco em Nantucket depois de Lou rechear uma música com feedback impróprio, acabando com J a pedir a Lou que berrasse na monstruosa “Don’t”, ruído final de Bug, as palavras “Why?/ Why don’t you like me?” até cuspir sangue.
Não só Lou Barlow era baixista non grata como, na verdade, o trio de Massachussets chegou mesmo a acabar. Apenas para J Mascis reformar a banda com o baterista Murph dias depois, com Donna Dresch no baixo e partir para uma pequena digressão na Austrália.
De regresso aos Estados Unidos, a banda é brevemente ampliada com Don Fleming e Jay Spiegel dos Gumball para a gravação de “The Wagon” – single mítico na Sub Pop e que J usa como cartão de visita para bater à porta das grandes editoras. Entre três ou quatro das possíveis hipóteses, salva-se de assinar pela Columbia quando tem um
acidente a caminho de uma reunião e acaba por apertar mãos com a Warner Bros.
Resumindo: parece que estava tudo a precisar de um cigarro, tal como a rapariga na capa deste Green Mind, o primeiro para a Warner, o primeiro sem Lou Barlow e, na verdade, o primeiro que (quase) também não tem Murph. Fora do que já tinha gravado em “The Wagon” e nas novas “Water” e “Thumb”, Murph fica no banco dos suplentes em vez de se sentar no banco da bateria. Os motivos variam mas, mais uma vez, o problema é fruto de uma falta de comunicação com J. e, salvo pequenos salpicos de Don Fleming, o resto do álbum tem mesmo um J Mascis a ser pau para toda a obra.
Essa é a primeira observação atípica para um álbum que quer abrir portas para a banda numa nova editora. O problema é perceber que banda e em que estado. Há uma certa anemia que vem com a perda de Barlow, mas também das próprias escolhas de J como comandante no centro de operações. Talvez por não querer alienar novos ouvintes, há
um maior cuidado em não lixar tímpanos com vergastadas agrestes de volume. É um álbum mais sensível e menos acessível não nos momentos em que J dedilha do fundo do coração, mas nos momentos em que canta desse mesmo sítio com um falsetto tão frágil e tremido que pode não cair bem a todos os destreinados que o oiçam em “Flying Cloud”.
No outro lado da moeda, há uma variedade que até então se encontrava ausente desde a estreia esquizofrénica da banda, em 1985. Uma experiência sónica mais comedida, mas com uma paleta bem descabelada ao serviço de J Mascis e dos seus engenheiros de som. Na forma como estes escolhem o som das guitarras e bateria, como enterram o
baixo na mistura ou até nos pequenos floreados inesperados que vão surgindo ao longo do disco.
Sem querer ficar demasiado escatológico, nota-se uma leveza no ar quando se ouve “Puke + Cry” ou “Muck”. São sinais de uma mente, verde ou não, a deliciar-se com novos brinquedos e bolsos mais largos. Se estes acabam por resultar, J Mascis tem dúvidas quando pensa nestas escolhas hoje em dia. Admite que o álbum tem um som estranho e que, se calhar, gastou-se demasiado dinheiro que não está necessariamente à mostra. Não é à toa que J chamou alguém com um ouvido mais apurado em John Agnello para os álbuns seguintes.
Mas a influência deste lado airoso é inegável, e as honras para a faceta acústica de J estão oficialmente feitas. Se, pouco tempo antes de Green Mind, J decidiu parar uma tiragem alemã de Bug por ter um single acústico que ele próprio achava horrível, a situação era agora outra e, em breve, estaria a compor uma banda sonora mais despida para o excelente Gas Food Lodging da realizadora Allison Anders ou a estrear-se a solo no CBGBs só com a sua Martin vintage.
Não podemos esquecer, de todo, o que nos trouxe ao baile. Os solos de guitarra. Eles estão cá, claro, vivos e de boa saúde. É impossível mencioná-los todos, mas confesso a São Pedro que a minha alma vai aos céus na transição entre “Blowing It” e “I Live For That Look”, nas notas de arrebentar cabedal em “How’d You Pin That One on Me” ou nos transes contemplativos e melancólicos de “Water” ou “Thumb”.
Os Dinosaur Jr. nunca foram uma banda divertida, com letras superficiais ou outras modas esquecíveis. Surpreende por ser um verdadeiro cavalo de Tróia. Pesado e magnético, ao princípio, mas melódico, deprimente e com devaneios completamente universais no que diz respeito a relações, desilusões, amores não correspondidos, inseguranças, esperanças e ansiedades. E estes sentimentos estão espelhados no ADN de todos os seus membros (mesmo para além dos três originais), em como chegaram até aos anos 90, quem influenciaram até lá, como se separaram, como se reencontraram e quem continuaram a conquistar até hoje.
Numa entrevista a propósito do relançamento de Green Mind, em 2019, J Mascis confessa que não sabe bem o que é que é esta “mente verde”. Ora, isto não só é uma resposta clássica e inconclusiva à J, como é prova suficiente para assumir que esta identidade misteriosa chamada Green Mind é aquilo que for preciso para quem a estiver a ouvir em dado momento.
Há sempre um “eu” e um “tu” nas músicas de J Mascis. E se J uma vez pensou no monstro gelatinoso de The Blob e, logo a seguir, em “ti”… então eu penso em como, para mim, Green Mind atravessa toda uma geração para chegar a 2026 e soprar velas com a frescura de quem ainda nem idade tem para comer a sua primeira fatia de bolo. E tal como o pequeno bebé que este disco já não é, se calhar está mesmo na altura de mais uma dose de “Puke + Cry”.
