Realiza-se por estes dias, no Porto, um Congresso pioneiro em Portugal, que vai analisar as contraculturas semeadas com o movimento punk.
“Keep It Simple, Make It Fast! Underground Music Scenes and DIY Cultures” reúne alguns dos principais investigadores, de todo o mundo, que têm trabalhado a propósito das culturas musicais urbanas, das culturas juvenis, das culturas e criações artísticas contemporâneas.
De 8 a 11 de Julho, em vários espaços da Invicta, vão ser apresentadas exposições, documentários, momentos Rise Up e música,claro, com concertos e Dj Sets.
No seguimento deste congresso, há depois outro seminário, também no Porto, entre 14 e 16 de Julho: “Another Music In a Different Room”.
A propósito deste seminário, o Altamont conversou com um dos oradores, o escritor, jornalista musical, produtor de documentárisos Michael Azerrad, autor de dois livros de referência: “Our Band Could Be Your Life: Scenes From The American Indie Underground 1981-1991” e “Come As You Are: The Story of Nirvana”.
Altamont: Não haverá uma certa ortodoxia moralista nas cenas musicais underground, por se vigiar e “sancionar” os mínimos desvios internos às “pureza” contra- cultural?
Michael Azerrad: Bom, parece que realmente acreditas nisso, e estou interessado em saber mais sobre as tuas experiências com este fenómeno em Portugal. Esse tipo de coisas prevalecia nos Estados Unidos, nos anos ’80, mas já acabou. A contracultura aqui abrange bastantes pontos de vista diferentes, e é muito fixe assim.
Na actualidade, onde o chamado alternative rock se tornou no novo mainstream, não haverá um certo esvaziamento do poder simbólico das cenas musicais underground? Ou, dito de uma forma mais cínica, não será o rock betinho de uns Vampire Weekend, o novo underground?
Os Vampire Weekend vendem imensos discos e tocam para públicos enormes, portanto não há nada de underground neles. O underground aqui nos Estados Unidos ainda está a prosperar e ainda é um símbolo válido de resistência contra a conformidade corporativa e a mediocridade. As pessoas fazem a sua própria música, os seus próprios discos, as suas próprias salas de espectáculo e muitas outras coisas. Usar a imaginação e aplicá-la a como vives a tua vida é uma bela maneira de ser rebelde.
Freud afirmava que toda a negação é uma afirmação. Não haverá um pouco desse sentido freudiano na afirmação recorrente de que o punk não está morto?
Haveria alguma espécie de afirmação negativa Freudiana se eu dissesse não, não é verdade?
Como se posiciona face à tese de Joseph e Andrew Potter (no livro “The Rebell Sell” de 2004) de que a contracultura não só não ameaça o sistema, como ainda o reforça ao funcionar como principal motor da sociedade de consumo?
Não li esse livro. Precisava de muito mais contexto e informação sobre isso antes de responder a essa questão.
Em que medida é que a internet alterou, para o bem e para o mal, a natureza das cenas musicais underground?
A Internet fez da cena musical underground uma comunidade global. Hoje, músicos de Vancouver conseguem marcar concertos em Buenos Aires; pessoas em Copenhaga podem ver o que é que as pessoas em Praga estão a vestir; fãs em Missoula conseguem ver um concerto de uma banda em Paris. E toda a gente pode partilhar música instantaneamente. Hoje em dia, pessoas que estejam muito longe umas das outras podem interagir, aprender coisas, trocar informação, ganhar consciencialização, fazer coisas acontecer.
Em que medida o poder de irreverência do punk inglês de 77 sai diminuído pelo facto de ter sido em grande parte engendrado pelo génio do marketing Malcolm McClaren?
A irreverência da cena punk de meados dos ’70s em Londres foi elevada, não diminuída, pelo Malcom McLaren. Ele era muito irreverente, um visionário que sabia muito sobre arte e teoria revolucionária. Não estou a dizer que era um santo, mas era brilhante.

