Reportagens

Vashti Bunyan || Teatro Maria Matos

Casa cheia. Aqueles que esgotaram os bilhetes para o concerto de Vashti Bunyan na passada sexta-feira apertavam-se nos bancos de panfletos fechados na mão, no teatro Maria Matos. Tanto da plateia como do balcão ouvia-se um burburinho de curiosidade diluída em nervos. Não é todos os dias que podemos assistir a um concerto de uma das mais míticas figuras do folk britânico da passada década – que assinou o hoje em dia álbum de culto Just Another Diamond Day, de 1970 (praticamente ignorado na altura) e mais dois discos do nosso século – Lookaftering, em 2005, e Heartleap, ainda no ano passado (e dito pela própria, para grande infelicidade de muitos aficionados, que seria, muito provavelmente, o seu último).
E foi com este espírito que o público reagiu quando Vashti, acompanhada por Gareth Dickson, músico cúmplice que pegaria nas rédeas da segunda guitarra em palco, entrou na sala, sorridente e encantadora. O aplauso caloroso deve-se ter ouvido, certamente, por Lisboa inteira; e Vashti, com a sua graça de ninfa, limitou-se a rir com a boa-disposição à qual nos habituaríamos com o andar do concerto.

Cumprimentando o público com um sorriso afável, Vashti debruçou-se sobre a guitarra e, acompanhada por Gareth – como sempre seria – começou a dedilhar os primeiros acordes de  “Herebefore”, do disco de regresso, Lookaftering. Mal abriu a boca e a sua voz de veludo lhe escorregou da garganta para os ouvidos daqueles que assistiam de lábios trancados e olhos bem abertos, sentiu-se aquele arquipélago de corações a aquecer-se a si e à sala. Tanto quem não ousava retirar os olhos do palco por um segundo – caso aquela mítica figura se desfizesse ao atreverem-se a acordar do sonho – como aqueles que fecharam as pálpebras para se sentirem embalados na voz suave de Vashti, ninguém deixou de a ouvir a partir do momento em que abriu a boca e até ao momento que a fechou.
“Escrevi esta música há muito tempo”, balbuciou, de olhos gentis e sorriso envergonhado. “Quando andei pela Escócia, de vagão e de cavalo, com um cão, uma guitarra e um namorado” – e ouviu-se a primeira faixa do seu disco de estreia, “Diamond Day”, a fazer encantar a sala. Seguiram-se “Lately”, também de Lookaftering e “Across the Water”, do mais recente Heartleap.

Vashti é, na sua essência, de uma simplicidade aterradora, uma criança traquina e envergonhada escondida atrás das saias da mãe que acampa no interior do corpo de uma mulher que já viveu muito. Sorri timidamente para a plateia, sem focar os olhos em ninguém em especial; parece ainda não acreditar. Os nervos, por vezes, tomam conta dela. Atrapalha-se uma ou outra vez a começar uma música, soltando um outro pedido de desculpas risonho. Sorri enquanto canta. Demora-se a falar de uma vida que não se atreve a deixar lá fora quando entra em palco – os filhos, os netos, o marido, a casa de campo, as camas por fazer, os almoços por cozinhar. É este despreconceito e nervoso miúdo de quem ainda não tocou fora do seu quarto que a torna tão especial aos nossos olhos. Provavelmente, não nos sentiríamos tão maravilhados e encantados com aquela senhora de longos cabelos cinzentos e olhos melancólicos se não sentíssemos na pele a quão maravilhosamente humana acaba por ser. Vashti age como alguém que aterrou no palco por acaso, que vai pegando no instrumento e experimentando, esmiuçando algo de completamente maravilhoso quase sem querer: e isso torna-a, de facto, uma espécie rara entre todos os outros com os quais nos cruzamos no mundo da música.
Seguiu-se “Train Song” – das primeiras músicas por ela escritas, numa juventude que frisa distante, sempre com o mesmo sorriso contagiante de orelha a orelha. É este o ambiente com o qual Vashti faz acompanhar o concerto; transforma aquela sala grande e fria numa sala quente, parece colocar sobre os ombros dos ouvintes cobertores imaginários e canecas de chá a escaldar. Delicia-nos com músicas de uma meiguice que nos deixa aconchegados, e de seguida faz um e outro reparo sobre a história da canção em questão; como é que a escreveu e porquê. O público ouve, deliciado, desejando que aquela senhora nunca mais se cale.

Pouco antes do fim do concerto, foi a vez de Gareth se chegar ao microfone. Vashti introduziu-o como um grande amigo que a acompanha há dez anos na estrada. Juntos, cantaram uma música da autoria do mesmo – “Two Trains” – que Vashti admite ser das músicas mais belas que já ouviu. O público, esse, não pode deixar de concordar, observando os dedos de Gareth deslizarem de traste em traste e a sua voz açucarada fundir-se à de Vashti.

Foi com “I’d Like Walk Around In Your Mind”, do seu primeiro e longínquo disco, que Vashti se despediu; mas os aplausos de pé, que ainda se prolongaram durante algum tempo, puxaram-na de volta ao palco, regressando ela e Gareth com a mesma vontade com a qual haviam entrado. Trocando sorrisos cúmplices, ocuparam de novo o seu pousio e agarraram nas guitarras; era a vez de “Wayward” – Vashti demorou-se na sua introdução, falando mais uma vez dos filhos e dos netos e das saudades que deles sentia, por vezes -, de Lookaftering. Quando o som da guitarra e a última nota soprada de Vashti se evaporou no ar, sorriu, olhou o público como quem olha um velho amigo e despediu-se. Gareth seguiu também.

Vashti não é uma vedeta nem nunca o será. Vashti é uma mãe, é uma avó, é uma mulher que passou trinta anos a viver numa casa de campo a fazer almoços e camas. E, em tempos, uma miúda sonhadora de guitarra na mão. Introduzindo uma das suas primeiras músicas – “Wishwanderer” – Vashti confessou; “escrevi esta música quando era muito nova. Queria estar noutro lugar que não aquele em que estava… Pensava que seria tão romântico andar de guitarra de um lado para o outro, a tocar as minhas músicas!” Ri-se baixinho e o público ri também. O amor que une Vashti às cordas da guitarra e à caneta sente-se à distância. É um amor que nos consegue transmitir com a sua voz de algodão e as suas melodias ternurentas, melancólicas, que nos deixam a sorrir e de coração pesado ao mesmo tempo, afundandos nos bancos. É um amor com qual se apresenta um palco, se engana nas notas, se baralha nos trastes, se demora na afinação mas mal começa a cantar sai tudo com uma perfeição de disco; com o qual nos conta histórias de amores passados, do marido, dos filhos e dos netos e de uma distante viagem pela Escócia. Quem teve a oportunidade de receber esse valioso amor guardá-lo-á para sempre num recanto qualquer. Hoje e sempre.

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Fotografias gentilmente cedidas por José Frade

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