Chico César é um caso muito sério. Apetece dizer, proverbiando, que dá vida aos mortos, mas também aos vivos.
Apesar dos pesares, estamos vivos e foi ao vivo que ontem brindámos à vida. Foi uma festa boa, ao mesmo tempo exuberante e comedida. No palco, apenas uma voz e um violão, ambos com larga história na música popular brasileira. Há muito que celebramos Chico César, o homem de Catolé do Rocha que o Brasil soube abraçar, num primeiro momento, mas a quem também o mundo lhe estendeu os braços, sentindo e entendendo a sua arte como suprema, humana, criadora de raízes entre os homens e as suas diferentes culturas. É, de facto, um cidadão do mundo, o Chico César que ontem se apresentou no centro de Lisboa, indo ao encontro do epicentro das saudades que temos sempre dele, mesmo que as suas ausências não sejam, felizmente, muito prolongadas. Há vontade e desejo permanentes de ouvir o que Chico César tem para nos dizer, mesmo que essa sonora mensagem seja a mesma que nos deu, mais coisa, menos coisa, há cerca de trinta anos, quando lançou Aos Vivos, o seu primeiro disco. Por isso reafirmamos que, apesar dos pesares, estamos vivos e é ao vivo que brindamos à vida. Com ele, no palco do Tivoli, quando a chuva caía mansa lá fora, enquanto a sua particular luz vocal brilhava lá dentro, mas também no interior de nós.
A tour que Chico César vem fazendo em vários locais do nosso país é extensa. São dez noites espalhadas pelo continente e pela Ilha de São Miguel. O disco Aos Vivos seria tocado na íntegra, juntando-se ainda um restrito lote de canções que a sua carreira imortalizou. Era natural que o público quisesse ouvir “Onde Estará o Meu Amor”, “Deus Me Proteja”, “Pensar em Você”, “Mand’ela” ou “A Força que Nunca Seca”, por exemplo, todas elas pertencentes a outros registos discográficos. No entanto, ouvir as doces maravilhas que são “Mulher Eu Sei”, “A Prosa Impúrpura do Caicó”, “Alma Não Tem Cor” ou “Saharienne” já trariam um extenso rol de felicidade a quem vos remete estas linhas. Seria o que Chico quisesse. E quis, para contentamento de todos. Quis muito, e ainda bem.
O mau hábito português de nada começar a horas, cumpriu-se mais uma vez. Claro que se esquecem os atrasos, quando a luz do palco se acende e todas as outras se apagam. Foi, como costuma ser, com “Beradêro” que Aos Vivos começou. Versão bem freak, com Chico de óculos bem iluminados na imensa noite escura do Tivoli. Logo a seguir, a explosão que sempre é “Mama África”, seguida da dolente “À Primeira Vista”, bela como nunca, sem rugas que o tempo, como sabemos, não costuma perdoar.
Chico César é um homem político, como tantos outros artistas. E, por isso, “ninguém é imigrante, estamos aqui ou em qualquer lugar”, disse após “Tambores”, dedicada a Mayra Andrade. Mesmo a calhar, veio a seguinte “Alma Não Tem Cor”, do genial André Abujamra, com direito a referências ao ET, de Spielberg, pelo meio da canção. Magia pura. Seguiu-se a angulosa “Dúvida Cruel”, de Chico com parceria de Itamar Assumpção. E não, não foi nenhum “pesadelo, pesadelo”, o tempo passado, até nos rendermos à inigualável “A Prosa Impúrpura de Caicó”, que faz sempre com que se quebre alguma coisa por dentro de quem a ouve. Nada grave, consertável com pozinhos mágicos no “peito catolaico” do coração que segue batendo para longe, muito longe, nas asas sonoras de “Asa Branca”. Terá sido o momento mais alto do concerto? É bem provável, sim. “Saharienne” ajudou ao desconcerto íntimo já fragilizado, com o seu “cheiro de carne humana”, até porque tudo morre, “só a arte não”. Depois, chegou a vez de “Benazir” e dançámos sentados na plateia, no balcão, onde quer que estivessem almas e corpos conjugados na bonita sala da avenida com nome de Liberdade. “Sha la la, sha la la Benazir”, cantámos todos. “O ballet belo infame” de “Já Fui Mulher” foi outro momento estratosférico, incondicionalmente belo e transversal a todos os tempos. “Clandestino” e a sua “filosofia vã” e sábia agitou de novo os corações, que voltaram a acalmar com a serena e inquietante “Templo” e com uma pitada de “Coração Americano” e outras memoráveis canções, brevemente revisitadas por Chico César quando cantou “Templo”. Que coisa mais linda! Faltavam “Paraíba”, “Dança” e “Nato”, que tão bem fecharam Aos Vivos e a sua extensa geografia humana de cores, gestos, sons e raças.
Quanto ao resto, não é só o resto. Foi muito mais do que isso. Foi a fita bonita e lustrosa do presente que o bom imperador César nos ofereceu. “Onde Estará o Meu Amor” velou por nós. “Estado de Poesia” misturou “meia-noite meio-dia” ao fuso horário das nossas comoções. “Deus Me Proteja” iluminou-nos e afastou-nos da “bondade da pessoa ruim”. “Pedrada” foi a surpresa que matou fascistas e matará os seus congéneres através da sua “bola incendiária”.
O encore fez-se com “Bom Dia, Tornozeleira” que “agarra na canela” e não larga mais, até chegar “Pedra de Responsa”. Nos derradeiros momentos, todos ouvimos “mamãe oxum na cachoeira”, despedindo-se de nós. Este foi o abraço que tu, Chico César, nos “nordestes” na noite de ontem. Volta em breve, que nós estaremos sempre cá para convivermos juntos.
Fotos gentilmente cedidas pela organização, de Daryan Dornelles.

