Quando o baixista Samuel Rebelo abandonou a banda, os Miss Lava perdiam bem mais que um fiel braço: era o seu líder que partia, o criativo que havia escrito e produzido o grosso dos dois primeiros álbuns. O vazio deixado não seria coisa fácil de preencher. Mas o que não mata engorda, e os sobreviventes não tiveram outro remédio senão sobreviver. Amparando-se uns nos outros, com um espírito de corpo inédito até então, todos fizeram questão de contribuir com o seu quinhão criativo, naquela atitude (tão Guiné 71) de um riff por todos, todos por um. Os resultados não se fizeram esperar: contra todas as expectativas, os Miss Lava acabavam de gravar o seu melhor álbum. Os caminhos do rock’n’roll são sempre insondáveis.
As credenciais stoner rock permanecem intocáveis: continua a ser um regalo saborear a textura vintage do som da guitarra, sempre espessa e com grão como se fosse feita de açúcar mascavado; e os riffs explosivos continuam a deixar nódoas de gasolina nos nossos headphones. Até aí nada de novo. Onde os Lava se fizeram gigantes foi na subtileza emocional: se nos registos anteriores a eucalíptica raiva não deixava nada medrar à sua volta, agora o refinamento é outro, pincelando uma hipnótica transe aqui, uma lúgubre escuridão acolá, e a paleta de cores não há meio de acabar. Dando apenas o exemplo da bonita “In a Sonic We Shall Burn”: quem diria que os Miss Lava iriam fazer um dia uma canção acústica sobre o luto, com deambulações psicadélicas e pinceladas western spaguetti!?
Não há como negar: Miss Lava já não é mais aquela sonhadora gaiata, princesa do reino da sua água-furtada; é agora mulher feita e cosmopolita, com um pé em Lisboa e outro em Detroit, onde a sua Small Stone Records está sediada. Esta editora independente acreditara nos Miss Lava mas faltava ainda um disco à altura desse voto de confiança. Os refrões certeiros e canções memoráveis de Sonic Debris não deixam agora quaisquer equívocos. No seu nicho do heavy rock, os Miss Lava jogam de pleno direito no tabuleiro internacional. E jogam para ganhar.