Kevin Morby veste a pele de caixeiro-viajante, levando consigo jovens músicos para espalhar a religião morbyana por esse Portugal fora.
Na crítica que fiz ao disco City Music, de 2017, referi lá pelo meio que Morby “merecia ter uma Aula Magna inteirinha em apoteose” à sua volta. Pois bem, volvidos sete anos, e uma diferença de escassos três quilómetros (sete minutos de carro, trinta e três a pé, onze de bicicleta, segundo o google maps) vi o meu pedido realizar-se. Depois de o ter visto em Coura em 2018 com banda e em ambiente festival, foi bom confirmar que as canções do cantor americano também resultam em contexto de sala própria, público sentado. Contexto ao qual foi acrescentado uns pózinhos de pirlimpimpim, na forma do Ensemble da Escola Profissional de Música de Espinho.
O Altamont tem nos seus escribas vários fãs do senhor Morby. Acompanhamo-lo desde o início de carreira, temos no nosso arquivo críticas a Still Life (2014), Singing Saw (2016), o já acima referido City Music (2017), Oh My God (2019) e This is a Photograph (2022). Ficou nos nossos tops em vários desses anos. Ontem fomos oito a sair de casa, com um céu a ameaçar chuva a qualquer momento, para o ver ao vivo e a cores. Assumimos portanto que, se o leitor busca isenção, não veio ao sítio certo.
Having said that, foi bastante aprazível a noite na Culturgest. O desfilar de canções cheias de alma, como Morby sabe fazer tão bem foi inebriante, “Come to Me Now”, “I Have Been to the Mountain”, “Harlem River” são alguns exemplos demonstrativos. Mas também com “This is a Photograph”, um pouco de “City Music” (a minha preferida), “Destroyer” e “Bitersweet, TN” fomos revivendo o que foram estes dez anos desta figura incontornável da nova corrente indie norte-americana. Ao recrutar o Ensemble para esta tour, mostrou a sua versatilidade musical, eloquência poética e conceptualização que gosta sempre de dar às suas obras. O som esteve talvez um pouco baixo, mas a ligação com os doze músicos do Ensemble funcionou bem, e permitiu um acrescento por vezes subtil, outras engrandecendo os riffs que Morby saca das suas guitarras (uma delas com o seu nome bem cravado no neck). Foi também notório o à-vontade com que o cantautor se mostra em palco, partilhando histórias na apresentação de canções, das quais destacamos uma dedicatória a um amigo recém-falecido, e uma referência ao artista John Callahan, cartoonista cuja vida foi retratada no filme Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot.
Últimas palavras para a tour criada por Morby, espraiando-se por Portugal e passando por cinco cidades: Faro, Lisboa, Viseu, Espinho e Braga. Temos salas bonitas e temos cidades a precisar disto, pelo que nada como um senhor vindo do longíquo Kansas para nos mostrar a nós, “Beatiful Strangers”, isso mesmo.
Fotografias: Vera Marmelo











