Éme e os seus colegas de trabalho tiveram casa cheia na ZDB para a apresentação do novo disco, numa noite suada de canções pop sensíveis.
O menu era perfeito. Se a perspectiva de ouvir o novíssimo Colegas de Trabalho ao vivo na íntegra (tal como Éme nos tinha prometido) já era mais que suficiente para nos abrir o apetite, os dois concertos escolhidos para abrir a noite só tornaram o programa mais apetitoso – estávamos muito curiosos para ouvir a estreia (pelo menos para nós) da banda Felizes Para Sempre, composta por elementos do coletivo GRAVV. e desejosos de ouvir a que soaria a junção das vozes de Sallim e de Orca no concerto que dariam juntas. Assim sendo e com o objetivo de não perder nem um bocadinho da festa, rumámos cedo ao Bairro Alto para celebrar com Éme e seus amigos.
Em Felizes Para Sempre encontrámos uma espécie de Yo La Tengo da linha de Sintra. Diogo (c-mm), Jarda (Heroína) e Carol (que voltaríamos a ver em palco a tocar baixo com Éme) mostraram as suas canções pop naif à moda de Beat Happening num concerto relaxado cujo mote era “Sejam felizes para sempre”. Os três amigos foram trocando de posições entre guitarra, baixo, bateria e piano e, embora tenham dividido os deveres de vocalista pelos três, importa destacar a doce voz de Carol que fez com que fossem as suas canções as que mais perduraram na nossa memória. É pena que não tenham ainda nada gravado, esperamos que não demorem.

O concerto de Sallim, que já acompanhamos desde 2016, e de Orca, que se estreou em 2023 com o disco Paisagem Trânsito, foi mais simples e despido – só um teclado (ou piano) e uma guitarra – o que permitiu dar mais destaque às duas excelentes vozes femininas que nos fizeram flutuar durante todo o tempo que estiveram em palco. O repertório foi composto por canções que estarão no disco que as duas amigas ainda hão de lançar este ano mas teve também espaço para versões de canções de cada uma das artistas – a ótima “Novo Início” de Sallim deixou as filas da frente da plateia a cantarolar – e também para “uma espécie de versão” de “Vida Cega”, da também amiga Leonor Arnaut, que Sallim e Orca conseguiram tornar verdadeiramente sua. Nem demos pelo tempo passar.

Éme entrou em palco vestido a preceito e acompanhado pela banda com quem gravou Colegas de Trabalho – Moxila, Francisca Aires Mateus, Carol Rodrigues e Kellzo. Sem perderem tempo atacaram “Pendente”, do disco mais recente e “Disco Tinto”, uma paragem no disco anterior, ambas canções animadas que serviram de aquecimento para a loucura que foi “La Feria”. “Não será cedo para esta?” – pensámos nós ao ouvir tão cedo no concerto uma das melhores canções do álbum que estavam ali a apresentar. O público, que não pareceu minimamente incomodado, cantou, dançou e gritou os versos do refrão de volta para a banda, empolgada com o entusiasmo – “Tenho imenso medo de acabar assim, alegre pra todos, e triste pra mim”. Tal como no disco, ali tivemos a secção rítmica de Kellzo e Carol, que, mesmo sem querer, fazia tudo soar mais rock e que guiava os restantes, a flauta e o violino de Moxila e de Francisca, que acrescentavam texturas deliciosas às canções, e a guitarra incansável de Éme, impecável no seu papel de frontman, mas a verdade é que, mesmo sendo os mesmos ingredientes, a música nos soou muito mais forte na ZDB, com mais power, demonstrando claramente a importância que tem para uma banda tocar ao vivo. “Malta, era a gozar, isto não é Rock” – disse-nos Éme, no seu habitual tom jocoso, visivelmente satisfeito.
Seguiram-se “Cruzeiro” e “Até Pra Falhar Tenho Um Plano”, que continuaram a receber reações entusiasmadas da plateia, mas quando chegou a vez de “Autocarro”, canção de Éme e Moxila em que Moxila assume a voz principal, deu para perceber que as canções mais antigas ainda recebem um carinho especial, ainda que se apresentem com uma roupagem mais pesada com direito a acompanhamento no baixo e na bateria. “Exílio”, do mesmo disco, também sofreu uma rock-ização – Será que Éme mentiu e afinal isto era rock?” – e “Coiote” continuou na mesma onda animada até que “Bullies” veio acalmar um pouco os ânimos.

“Aleatório”, “Fantasmas” e “Branco Maduro” antecederam “Colega de Trabalho #1 – Dr. Rui Faria”, canção em que pudemos ver Éme a pôr em prática o seu “momento c-mm” e a fazer ao vivo os berros emo que ouvimos na gravação. Não esperávamos, no entanto, a guinada que a banda deu imediatamente a seguir quando passou de guitarras depressivas e de “aaaaahhhhh” desesperados para “42, bebe de mais, cego de um olho, ainda vive com os pais” em 0,5 segundos e sem qualquer aviso prévio. Pedimos desculpa, Éme, mas foi bué rock.
Despedimo-nos da banda e Éme e Moxila ficaram sozinhos para tocar “Colega de Trabalho #2 – Rei do Pinhal”, a única que faltava do álbum novo, num momento que nos levou de volta aos concertos de apresentação do disco que fizeram a dois. Finda a tarefa de mostrar Colegas de Trabalho, a banda regressou ao palco para uma última versão rock de uma música antiga, desta vez a estupenda “Assalto”. Como as palmas não os deixavam ir embora, Éme e Moxila prometeram ficar para um “crowd-pleaser” que não tinham ensaiado. “Sintam-se pleased” – disse o músico, começando logo de seguida a cantar “suave como o sol a bater no rio espelhado”. “Relaxado” fechou o concerto de rock de Éme e companhia com uma canção “à antiga”, despida e acústica, só com o acompanhamento indispensável de Moxila.
Sentimo-nos, de facto, muito pleased, por verificar que houve espaço para tudo nesta bonita festa que Éme organizou – desde pop naif a pop mais sonhadora, passando por pop que quer ser rock e pela carga rock que cantar uma canção que não tinham ensaiado só para agradar aos fãs tem. No fim do dia, rótulos não interessam muito, interessa sim que se façam boas canções e que se tenha bons músicos com vontade de as tocar ao vivo. Felizmente para nós, Éme cumpre ambas as condições.
Fotografias por Duarte Pinto Coelho




















