Com uma menção ao santuário que não fará ponte com o resto deste texto, venham descobrir porque é que os Terno Rei foram reis e senhores no dia 28 de fevereiro, em Lisboa.
Não é bom estar em sintonia com um concerto? Estar na mesma frequência, na mesma onda. Pensem nestas palavras não para explicar os conceitos mais técnicos em que elas realmente se enquadram, mas para adjetivar outras sensações que não têm grande ciência. Quer dizer, até devem ter, mas não serão vocês a entidade indicada para as expor. Portanto, a não ser que venha aí um crânio qualquer para vos ajudar a perceber como é que a música funciona no cerebellum de qualquer um, limitam-se a transpôr a vossa massa cinzenta para um momento chave em que estão a vibrar com uma certa banda pela primeira vez.
Mas estão tranquilos, fizeram parte do vosso trabalho de casa e ouviram alguns álbuns. Por coincidência, o último que escolheram, tem uma das vossas músicas preferidas (das que ouviram, claro) e é precisamente com essa que a banda decide abrir o concerto. Meu Deus, o som da banda está a escorregar que nem mel que pelos vossos ouvidos. É ainda melhor do que estavam à espera. E está a resultar tão bem ao vivo.
Depois, lembram-se da palavra “terno” e em como ela está no nome da banda. Ouvem mais um pouco e faz todo o sentido. Em cada letra, em cada palavra cantada, em cada gesto. Mesmo quando a banda quer carregar no pedal mais um pouco e quando é preciso mais agressão, a delicadeza e o coração suave de qualquer um dos jovens da banda de São Paulo que estão a ver bate ao ritmo certo. A esta altura, estão completamente embalados e já não querem saber de mais nada. Parece aquela promessa mística que tanto se fala por aí na qual, e passo a citar, “se pode deixar os problemas à porta”. E é precisamente isso que está a acontecer.
“Viver de Amor” e “Próxima Parada”, as duas primeiras músicas, deixam-vos de coração nas mãos. Não conseguem parar de cantar palavras que não sabem, e estão para lá de contentes só de ali estar com outros estranhos. Mas as cantigas são tristes e, de acordo com o vocalista e baixista Ale Sater, a banda só tem duas que são mais alegres. Por alguma razão, isto ainda vos sabe melhor. Deixam-se ir completamente. Vão reconhecendo uma ali e acolá do que foram ouvindo até chegarem à sala secundária do LAV. Como o final do mês se avizinha, não levam a mão ao bolso para uma imperial. Pelo menos, não ali.
Com o concerto no papo, dão permissão à vossa própria atenção para se dispersar pelo público. Vão ouvindo laivos mais concretos de português do Brasil. Muitos, até. Olham para trás e a casa está composta. Sentem o amor que o público sente pela banda. Acreditam que muitos são fãs acérrimos. E vocês, não sendo nenhuma autoridade nem máxima nem mínima em Terno Rei, fazem parte desse carinho. Pelo menos, por uma noite. E estão ali, a emprestar os vossos olhos, ouvidos e a gostar do concerto como não pensavam que seria possível. Será que a vossa resistência ajudou à entrega total?
Mas, pela calada, entre o barulho, chega um momento maldito. Percebem, no meio do êxtase, que têm escassos minutos para completar um pagamento às Finanças. Aproveitam a pausa meio incómoda, entre músicas, em que luzes demasiado fortes vos ofuscam, para o fazer. Será que conseguem, será que não conseguem? Será que o conseguem fazer antes da música seguinte começar? E se só pagarem amanhã, haverá problema? Melhor não arriscar. Não querem deixar que uma falha fiscal estrague uma experiência que vos está a embalar deste mundo para outro.
Até porque não querem voltar ao vosso, querem continuar a pairar, eternamente com Terno Rei. E, pela primeira vez na vida, depois do concerto acabar, até nem se importam que o Metro demore uns 20 minutos demoníacos. É só mais uma desculpa para ouvirem o álbum mais recente, Nenhuma Estrela.
Nem repararam se o céu estava estrelado ou não, mas sabem que têm de acabar o texto com alguma coisa. E que já estão atrasados na entrega, ai isso já estão. Rejeitam o título Nenhuma Estrela, até porque acabaram de ver quatro em palco. Depois pensam que uma comparação de estrelas literais com estrelas figurativas é demasiado fácil e bimbo. Esforçam-se para não escrever uma frase feita, em ponto de rebuçado, para acabar o texto.
Não conseguem. Que se lixe. Atiram as mãos ao ar e aceitam que é assim que gostam de escrever.
Mas está tudo bem, não só porque ninguém quer saber das vossas dúvidas a qualquer hora do dia. Mas porque é aí que percebem a razão dos Terno Rei dizerem que não há Nenhuma Estrela. Porque eles ficaram com elas todas quando agarraram o céu de Lisboa.
Fotografias por Felipe Kido



















