Na Casa Capitão, a noite de 1 de março foi de surfer punk pop, ou o divertido slacker bubblegum, servido sem grandes cerimónias: distorção no ponto e aquela sensação aconchegante de concerto meio familiar, meio caótico, que acontece quando a maioria do público conhece as músicas todas.
Os Veenho, banda de Lisboa, abriram a noite com o ritmo certo, indie rock acelerado, com claras inspirações em bandas como Dinasaur Jr (aliás, um dos guitarristas trazia uma t-shirt da banda), e os Wavves, mas com uma identidade própria. Aqui, no Altamont, é uma banda que tem angariado muitos fãs, como podem ler aqui , aqui , aqui (concerto fuzz) e aqui.
O público estava caloroso, notou-se uma certa familiaridade e reciprocidade entre banda e quem assistia (muitos gritos cúmplices e corpos a mexerem-se), todos em sintonia entre si.
A certa altura, o agradecimento que disse tudo: “os Wavves são a nossa banda favorita”. Pois, é notória a influência da banda na construção sonora dos Veenho.
Mesmo antes de terminar, a banda soltou um sample de “Death to the IDF”, Bob Vylan, que serviu de introdução, uma escolha que não foi neutra, nem pretende ser. Mal sabíamos que era um momento de foreshadowing que se adivinhava. Mas, adiante.
Entraram os americanos Wavves. Nathan Williams, vocalista e fundador da banda, meteu-se com quem o assistia “Hello, Lisbon, I don’t know what to say, I’m very drunk”. Arrancaram rapidamente e em força, libertando uma tensão que percebemos que estava presente. Logo na segunda música, mosh começou e assim se manteve durante quase todo o concerto.
Não será a cena mais inovadora do mundo, mas fizeram-no bem e o público adora. Há uma espécie de energia adolescente difícil de fabricar (apesar de quase todos da banda terem 40 anos, ou mais). Há um certo orgulho nesta postura meio desleixada, meio calculada, mas sempre eficaz. Canções directas, refrões que colam, aquela sensação de que o mundo é simultaneamente absurdo e urgente. Não reinventam a roda, mas fazem-na girar depressa.
Nathan Williams falou muito durante o concerto, sobretudo para dizer coisas aleatórias (conta histórias meio bizarras que depois terminam com “ah, isto é tudo mentira”), não será o narrador mais fiável, mas o público estava contente: olhámos em volta e só vimos sorrisos, braços (e pernas) no ar.
Contudo… a meio de alguma destas tiradas, Williams disse “I was travelling through Portugal, I thought it’s very beautiful” e alguém gritou da plateia “Então e o Irão?”. Ora, há várias respostas possíveis a esta pergunta. Devido ao contexto em que estamos, em que EUA e Israel no dia anterior bombardearam Irão, parece-nos uma pergunta interessante, que também nos mostra que os seus fãs são pessoas informadas e que esperam algum tipo de resposta, ou vá, algum tipo de posicionamento da banda.
A resposta de Williams a esta pergunta não seria a mais óbvia, mas foi “Don’t know never been”. Sabemos que a pergunta não era inocente, mas a resposta foi fraca. Tanto que não teve grande reacção de quem assistia. Williams, alcoolizado ou não, insiste “Let’s not talk about politics” o que… deixa travo amargo. Ainda repete esta ideia daquilo não ser um espaço para falar sobre política (altamente discutível), mas conseguiu redimir-se levemente quando alguém insistiu com “What about your president?”, ao que (finalmente) respondeu “Fuck Donald Trump and ICE”.
Talvez seja injusto esperar que uma banda tenha algum tipo de posicionamento político (discutível, pano para mangas, etc. etc.), mas quando são os próprios fãs a questionar, parece-nos óbvio que é um tema importante. Mas, o concerto lá recomeçou e o pessoal continuou a dançar e a moshar até ao fim.
No fim da noite, ficou a sensação de concerto cumprido. Não sendo transcendente, foi divertido e sólido.
Fotografias de Rui Gato


























