Há concertos que não se esquecem. E quem esteve no CCB para aproveitar a visita do senhor Egberto Gismonti, seguramente, que não se esquecerá.
Calado, de lenço vermelho na cabeça, de preto do pescoço aos pés e com um enorme rabo de cavalo branco a enfeitar as costas, Gismonti não impressiona. Nem bom dia, nem boa noite. Entrou e, com a tranquilidade de quem se senta numa sala de estar, ajeitou a guitarra e lançou-se num corridinho pelas dez cordas. No final, calado, levantou-se e agradeceu com vénia. E sentou-se, calado, nem bom dia, nem boa noite.
O domínio da guitarra é tão perfeito como assustador. Serve de instrumento de ritmo, de acompanhamento e de solista, nas mãos de Gismonti a guitarra é uma máquina diferente. E a música é só dele. Mesmo que o toque brasileiro esteja sempre presente, a música de Gismonti é um género à parte, ali entre a música brasileira e … tudo o resto. Gismonti podia ser um brilhante guitarrista.
Com a mesma tranquilidade com que remata cada música com uma vénia, passeia até ao piano e deixa-se calado entre aplausos. Ao piano, a descarga de energia com que ataca cada música, assim como as notas bem humoradas que vai soltando pelos temas ou o balanço a bossa tornam-se mais evidentes. Ao piano, e pelos ouvidos de um leigo, Gismonti deixa o jazz mais longe e a sinfónica mais perto. Gismonti podia ser um brilhante pianista.
Falou. Em meia dúzia de minutos, disse que se sentia em casa, contou a história do povo irmão e uma bela piada sobre a sua música mais conhecida – “Palhaço” – e respectivos problemas de interpretação quando o público a decide pedir em coro. No CCB perante um público que quase parecia estar a assistir a uma palestra sobre macroeconomia – ora deslumbrados com as previsões, ora aterrorizados com as ondas de choque, mas sempre imóvel – Gismonti não deixou ninguém indiferente. Como em tudo, seguramente que houve quem não percebesse, quem não gostasse e quem tivesse ficado no limiar do êxtase. No final, os sorrisos e os desabafos pelas décadas de espera pela visita faziam crer que a mensagem tinha passado. Gismonti podia ser guitarrista ou pianista. É génio.
[wzslider lightbox=”true”]
(Fotos: Mafalda Piteira de Barros)
