Ao segundo disco lançado em nome próprio, Caroline Polachek torna-se o ícone pop que sempre quis ser.
A escalada até Desire, I Want to Turn Into You foi demorada. Ainda antes do fim dos Chairlift, banda synth pop que fundou com Aaron Pfenning há quase duas décadas, Caroline Polachek já andava a planear a sua reinvenção. Arcadia (lançado em 2014 sob o nome de Ramona Lisa) é um pedaço de pop conceptual gravado em casa, enquanto que Drawing the Target Around the Arrow, lançado uns anos mais tarde, é um disco ambient composto apenas por ondas sinusoidais. Foi preciso chegar a 2019, e ao lançamento de Pang, o primeiro disco lançado em nome próprio, para termos os primeiros vislumbres deste novo disco. O conceptualismo ainda está bastante presente (particularmente nos telediscos), mas a roupagem é completamente diferente. Co-produzido por Danny L. Harle, Pang é pop moderna, maior que a vida, sem nunca permitir que a exuberância esconda a riqueza das suas composições.
Desire, lançado no início do ano, é a evolução natural deste crescimento. Como sempre, a voz de Polachek é o principal instrumento no disco e isso é tornado evidente logo em “Welcome to My Island”, na qual o seu suspiro é rapidamente substituído por um rugido de fazer estremecer os deuses, enquanto guitarras triunfantes ecoam do topo da montanha. Mesmo quando é utilizada como acompanhamento, como em “Pretty in Possible” ou no lamento espectral de “Hopedrunk Everasking”, o seu domínio. Gravado nos interstícios da digressão de Pang, é um projeto inevitavelmente variado: o piscar de olho ao reggaeton de “Bunny is a Rider” é sucedido pelo bolero de “Sunset”, co-produzida por Sega Bodega; é difícil determinar onde é que o devaneio drum and bass de “Fly to You” (gravada em colaboração com Dido e Grimes) cabe no meio disto tudo. O sucesso destas combinações todas é um testemunho da versatilidade de Polachek e Danny L. Harle no que diz respeito a composição e produção.
O disco termina com “Billions”, um épico em miniatura, onde um emaranhado eletrónico floresce até culminar numa coda cornucópica (como Polachek canta na segunda estrofe) alicerçada nas harmonias do Trinity Choir. Desire, I Want to Turn Into You é o culminar de uma transformação que começou há uma década atrás. Quem sabe para onde Caroline Polachek nos levará na sua próxima metamorfose.