Canção do dia

“Waterfall” – The Stone Roses

Se fossemos melómanos da classe média britânica durante a década de 80, residentes em Manchester, iríamos muito provavelmente tomar um partido em relação à Thatcher, à Guerra Fria e ao que escolhíamos ter no nosso gira-discos. Podíamos virar-nos para a melancolia dos discos de Smiths, para a agressividade das canções de Bauhaus, para os ambientes de Echo & The Bunnymen ou para a new wave dançante de ABC ou New Order.

Mas à medida que os anos 80 chegavam ao fim, a forma depressiva, balanceada e, outrora, experimental de pegar numa guitarra e de compor música começou a ser repetitiva. A Grã-Bretanha tinha-se isolado num quarto escuro, cheio de velas, desamores e rancores. Faltava uma luz, uma janela aberta, uma lufada de ar fresco.

Quem diria que, vindo da cena de Madchester, em 1989, os Stone Roses se lançariam, com o disco homónimo, e iriam desenhar aquilo que foi uma das visões mais importantes na construção da Britpop? Uma visão solarenga dos dedilhados e das grooves, ainda pedradas das drogas repetitivas de riffs, típicas dos anos 80.

«Waterfall», um dos singles retirados do self-titled album, é um dos típicos exemplos desta nova sonoridade dreamy, alegre, e, quase, veranil, em contraposição a um post-punk frio, arrepiante e existencialista. A canção dança alegremente à volta do arpejo inicial em Fá sustenido e dá mote a uma candência sofisticadamente taberneira: de pint na mão enquanto saltitamos em cima da mesa de um pub. A ambiguidade da letra empurra-nos para uma dualidade: será que Ian Brown, o vocalista, compara uma mulher à força consistente de uma cascata? Ou será que esta canção é, como muitos afirmam, um patriótico hino à alma resistente da Grã-Bretanha? Não interessa. O paradigma mudou. Nunca mais se abordou a guitarra da mesma maneira. Alegria. Não foi por acaso: no mesmo ano deste disco, o muro de Berlim caiu.

A verdade é que, a partir deste momento, os anos 90 foram postos à prova – «Soon to be put to the test» – Ian Brown dixit nesta canção. Se porventura se sentarem à mesa com os irmãos Gallaghger, não se esqueçam de trazer à baila o álbum Stone Roses ou o Second Coming. Eles aprovam. A discografia de Oásis berra isso. A discografia Britpop berra isso.

 

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