O terceiro e último tomo da trilogia Bloom sabe ao último cigarro na noite fria e ao vazio que vem depois. A beata esquecida a arder…
Há quatro anos, numa entrevista ao senhor Bloom (movida a cerveja e nicotina, naturalmente), ficou-me gravado o seu sorriso generoso e ambíguo, como se tentasse esconder uma fundíssima melancolia. Não mais soube do senhor Bloom desde então, excepto uns vagos rumores de que viveria sozinho numa pensão em Xabregas, raramente saindo do seu quarto, e em cuja porta estaria pendurado um aviso bem bloomiano: “não me levem a mal, mas preferiria, se possível, que não me incomodassem”. E, porém, cá estamos de novo a maçá-lo, escarafunchando o seu novo disco.
(são canções feitas de silêncio / vêm da noite fria)
O ponto de partida foi o de sempre: mijar em cima do seu trabalho anterior. Onde Drafty Moon era expansivo e teatral – coca, cabaret e escape -, Do Not Disturb é despojado e contido: a pausa desconfortável entre os amantes, a cela rudíssima onde dorme o monge.
(são palavras que apenas escondem / vêm do poço opaco)
Não é pop, nem jazz, bem pelo contrário. Quando tenta “jazzar” fica música popular, quando tenta “popar” fica jazz fumarento. Os dois temas instrumentais que encerram cada um dos lados do vinil (só há em CD mas vocês percebem a ideia) pertencem à última categoria. E a última delas, e canção-título, tem a particularidade de ser tocada apenas pelo senhor Bloom, sax alto incluído, deliciosamente tosco, como um menino desenhando a sua mãe. Será talvez “popazz” ou quiçá “jazzop”.
(são dez canções tristes e belas / vêm do frio que queima)
A voz, duas porções de Bowie de Berlim por uma de Stuart Staples acabado de acordar, encontra-se ensopada em reverb, encostada obscenamente ao microfone, mas gelada como os lábios de um médico legista, não canta, segreda, não diz, insinua. É a fala de alguém quebrado por dentro, encolhendo os ombros, como se já não estivesse cá.
(são melodias que fazem chorar / vêm do escuro denso)
Se é verdade que alguns dedilhados folkie lembram Tremble Like a Flower – veja-se o caso de “Michele”, com o seu piscar de olhos maroto ao “River Man” de Nick Drake -, já não têm a doçura pastoral de outrora, mas sim o azul desbotado dos olhos dos velhos.
(são cantigas que nos assombram / vêm não sei de onde)
A única vez em que aflora uma percussão é no tema de abertura, “Mr. Nabokov’s Sleepless Night”, leve e vaporosa como a espuma ao luar. Mansa e muda, a angústia entranha-se.
(são odes ao desencanto / vêm do fel na boca)
Um disco feito de saliva veneno, vais sempre magoar quem amas.
(dez canções de amor / dez mentiras/ dez punhais)