Cloud Machines é de uma intranquila serenidade deslumbrante, um disco sem tempo, onde passado e futuro habitam um espaço que foge a toda e qualquer dimensão.
Por vezes, faz sentido lembrar a expressão dita por John Cleese, nos breves espaços entre sketches dos Monty Python: “And now for something completely different!”. Serve-nos esta memória para introduzir um álbum bastante recente e que muito nos tem entretido a cabeça, desde há uns dias a esta parte. No entanto, um aviso prévio, um esclarecimento que nos parece obrigatório fazer-se já: aqueles que esperam encontrar sempre, disco após disco, canções de estrutura clássica e até, eventualmente, um ou outro refrão mais orelhudo, façam skip a este texto e procurem melhor apeadeiro sonoro, que este álbum não deverá servir as vossas intenções.
A música, como bem sabemos, não é só esse encanto mais fácil e direto (não estamos a desvalorizar os adjetivos, ok?) que tantas vezes consumimos com agrado máximo. Ela também pode muito bem ser desafiante, enigmática, incómoda, embora prazerosa, deslumbrante e admirável. E sim, apesar disso, fazer-nos companhia sem qualquer tipo de inconveniência ou estorvo. Da mesma maneira que são insondáveis certos desígnios divinos, também a música pode proporcionar-nos algo de muito equivalente. É de Cloud Machines que aqui tratamos, esse objeto sonoro distinto e particular feito pela dupla Berndt (John Berndt, saxofonista dado a experimentalismos eletrónicos) e Schmidt (Martin Schmidt, da bem conhecida dupla Matmos). Preparados? Esperemos que sim.
Dito de maneira simplista, Cloud Machines é um álbum em forma de jogo, transgressor e disperso nas suas texturas, embora agregador, homenageando gente da música, mas também da banda desenhada. Pela capa, muito bonita e irresistível, percebemos o apreço por Moebius, mas é, naturalmente, na música que notamos mais influências de nomes, estéticas e bandas, embora sujeitas ao toque transformador da dupla norte-americana.
Ouvido com a devida atenção, parece estarmos na presença de um trabalho perdido, e só agora revelado, do krautrock dos finais da década de setenta, semelhante às obras seminais da primeira fase dos Cluster, sobretudo no que diz respeito aos álbuns Cluster 71 e Cluster II, ambos fragmentados e herméticos, claustrofóbicos, mas com janelas por onde se pode, mesmo assim, respirar um pouco. E se a isso juntarmos as suaves e imprevistas melodias de Cluster & Eno, o retrato de Cloud Machines poderá começar a ganhar contornos mais definidos. Trata-se, na verdade, de um jogo, como há pouco referimos, de um puzzle de texturas, bleeps lentos e difusos, frios, mas também de guitarras, trombones, saxofones, pianos, baixos, baterias programadas, sintetizadores modulares, ondas sinusoidais e sons de objetos. Pode tudo isto resultar numa cacofonia sem pés nem cabeça? A resposta é um claro e definitivo não!
Embora tenhamos dito que Cloud Machines parece ter-nos chegado do passado, é também um facto que outra das impressões que nos deixa é de ser um objeto futurista, digamos assim, moderno e feito para uma qualquer pós-era mais ou menos distante da nossa. Essa ambivalência temporal é um dos constantes desafios que o disco propõe, colocando-nos, enquanto ouvintes maravilhados, numa posição em que tentamos encontrar um equilíbrio entre essas duas instâncias de tempo e som. “The Sound of Glink” parece estalar-nos os ouvidos. É pura experimentação rítmica, ao mesmo tempo dançante (por vezes é dentro da cabeça que se dança, e não o corpo que se move) e evocativa. “Analysis of Joel” é desconstrução, fragmentos que se sucedem (Arto Lindsay é bem capaz de gostar disto, sobretudo se nos lembrarmos dos tempos de Aggregates 1-26), a faixa mais densa e estranha de todo o trabalho. Já em “The Balcony”, por exemplo, essa estranheza desaparece, pois são nítidas e envolventes as ondas sonoras, o céu do som parecendo clarear. Por fim, “Cloud Machines” é das coisas mais belas que temos ouvido, dentro deste estilo de composições, nos últimos tempos. Abstrata mas capaz de ser calorosa, densa e frágil, uma longa despedida, um acenar de mãos agradecido por termos feito toda uma imensa viagem liderada por Berndt e Schmidt.
É difícil resumir Cloud Machines, por isso é desafiante ouvi-lo. É, acima de qualquer outra coisa, um triunfo inusitado. Virar-lhe as costas é a hipótese que mais vezes se concretizará, embora não nos pareça ser a mais sábia. Mas, como tudo na vida, a cada ouvido o seu mais estimado ruído, pois cada um sabe de si. Nós, no entanto, sabemos que tudo o que aqui vos deixámos não é mais do que um convite. Nós aceitámo-lo e estamos muito satisfeitos com isso.