Não se resiste à magia de Luke Haines e este Izzy Wizzy Let’s Get Busy é bruxaria sonora psicadélica da mais alta qualidade.
Luke Haines é um tesouro muito bem guardado. Tão bem escondido e protegido, que poucos dão conta dele, conhecendo a obra e o valor da mesma, mesmo que a história discográfica por detrás do inglês de Walton-on-Thames tenha já várias décadas de existência, apresentando-se como líder de projetos como The Auteurs, Baader Meinhof ou Black Box Recorder, para além de ser pintor e escritor, já com vários livros publicados. No que à música diz respeito, Luke Haines tem gravado bastantes álbuns em nome próprio, desde o início do século, e em todos eles se faz notar a fértil imaginação conceptual do músico, a par da sua excentricidade. Dois ou três exemplos apenas, que bem documentam o que dizemos: 9 1/2 Psychedelic Meditations on British Wrestling of the 1970’s & Early ‘80s, saído em 2011, explorando o bizarro mundo dos lutadores Big Daddy e Giant Haystacks, autênticos heróis dos sábados da TV inglesa; Rock and Roll Animals, de 2013, uma história para crianças com psicadelismo suficiente para ser mais própria para adultos, sobre os músicos Gene Vincent (que no álbum é um gato), Jimmy Pursey (uma raposa) e Nick Lowe (um texugo) e ainda I Sometimes Dream of Glue (2018), cuja premissa se baseia numa realidade totalmente alternativa do pós segunda guerra mundial, na qual um bombardeiro britânico se despenha na periferia de Londres, contendo uma carga brutal de uma cola solvente bastante tóxica e com propriedades mutantes, o que resulta no nascimento de uma comunidade de pessoas com cerca de seis centímetros de altura, habitantes esses que passam a vida em festas e em estado de euforia, tudo devido aos intensos vapores da cola derramada em Glue Town. Acreditem, estes são apenas modestos exemplos do muito que haveria a contar sobre os trabalhos de Luke Haines.
Recentemente lançado, Izzy Wizzy Let’s Get Busy acrescenta mais um capítulo ao imaginário sonoro e narrativo da obra do músico em apreço. Desta vez, a mente do irrequieto Haines deriva até ao tempo dos programas infantis da televisão inglesa das décadas de 50 até à de 90, que exploravam a magia, o ocultismo magick e feitiçarias várias. Pois, é verdade: da cabeça de Luke Haines nunca se sabe o que poderá sair em forma de disco. Vamos a ele, então, que já vai longa a introdução, que por qualquer forma de arte mágica se estendeu até aqui, o que não deveria ter acontecido.
Como dificilmente poderia deixar de ser, Izzy Wizzy Let’s Get Busy é uma festa para os nossos sentidos estéticos. Mais uma bizarria que nos deixa em ponto de rebuçado de satisfação sonora. Apresenta catorze faixas em cerca de trinta e um minutos. Pequenas, delicadas e breves iguarias musicais, portanto, a começar pela faixa inicial, em que espantalhos ganham vida e na qual se começa a manifestar um ambiente hipnótico e sombrio, espinha dorsal, digamos assim, que percorrerá todo o disco. É pop tradicional (à maneira de Haines, claro), cantada naquele sussurro quase falado, típico do registo do músico. O verso que dá nome à faixa e ao disco (“Izzy Wizzy Let´s Get Busy”) vem da frase do nostálgico boneco infantil Sooty, que na canção, de tantas vezes repetida, acaba por funcionar como um estranho e enigmático mantra durante todo o álbum, ao qual se regressa na micro-faixa derradeira “Izzy Wizzy (reprise)”. A instrumentação minimalista e algo atmosférica deste mais recente trabalho de Luke Haines afasta-se bastante da recente trilogia de álbuns que fez com Peter Buck, lendário guitarrista dos há muito extintos R.E.M. Agora, o feitiço é outro, mais caseiro e menos roqueiro, mais indie-folk psicadélico, com guitarras que parecem flutuar como zombies, flautas que sopram imagens fantasmagóricas, sintetizadores altivos que trazem uma pequena ponta de terror e assombração a algumas das composições de Izzy Wizzy Let´s Get Busy. “Death Card For The Kids” é catchy, “Tommy Cooper – Chaos Magician” é spooky, “Mum” parece medievalesca, assim como “The TV’s On All The Time” tem forte pulsão rock, “The Open 2” faz corar com o verso “Your mama sucks cocks in hell” e “Spiritualist Church at 7.30pm Every Other Wednesday” é linda e sonhadora.
O nosso apreço por Luke Haines é óbvio, e pode facilmente ser encontrado nas imensas páginas altamontianas deste site. São poucos e raros os músicos como ele, ainda menos os que fazem discos que têm algo a dizer, fugindo aos convencionalismos rotineiros e à parafernália de lugares comuns que inundam a música dos nossos dias. O prazer retrô com que se ouve um qualquer disco de Luke Haines não tem preço. Ele é único, nem sempre tão brilhante como gostaríamos, é certo, mas que este Izzy Wizzy Let’s Get Busy é muito bem esgalhado, disso não temos quaisquer dúvidas. Um prazer que vai fazendo o seu percurso em crescendo, e que por qualquer poder magick que certamente tem, à maneira de Aleister Crowley, pode bem fazer-se erguer a lugares cimeiros, lá mais para o final do ano.