O quarteto canadiano BadBadNotGood consegue o feito de se equilibrar numa corda bamba esticada entre o cool de óculos escuros do jazz dos grandes do século passado e um som que soa a algo novo e fresco na era dos smartphones. Os três transformaram-se em quatro (com a adição oficial do saxofonista Leland Witty) e é no meio destes dois mundos que nasce o seu mais recente projeto, IV.
Foi no longínquo ano de 2014 que os quatro meninos-prodígio da mais recente vaga de jazz canadiana se apresentaram sozinhos pela última vez, com o prodigioso III. Agora, em 2016, desdobram, em onze faixas, mais uma vez, o seu sabor único e fresco, graças instrumentais bem decorados que escorrem pelos ouvidos com suavidade e certeza.
IV abre as portas com “And That, Too.”. Tema seco e seguro, envolto num manto de mistério e negrume graças ao baixo certeiro e aos sintetizadores que puxam a thriller de meia-noite. Segue-se a orelhuda “Speaking Gently”, na qual Leland Witty encontra um dos seus maiores momentos de brilhantismo, de lábios presos no saxofone, assegurando que certamente o veremos plantado ao lado de Matthew A. Tavares (teclista), Alexander Sowinsky (bateria e samples) e Chester Hansen (baixo, contrabaixo), durante anos vindouros.
O verdadeiro presente chega-nos à terceira faixa, com “Time Moves Slow”. Sam Herring, dos Future Islands, alista-se como o primeiro convidado do disco, unindo forças com o groove sem esforço das baquetas de Sowinksy, e a linha de teclado sedutora de Tavares, para graciar o ouvinte com o tema mais memorável de todo o disco. Sam Herring suplanta-se ao suave instrumental, que deixa o holofote brilhar sobre a sua voz de veludo enquanto esta chilreia com sentimento: “running away is easy, it’s the leaving that’s hard.” Para ouvir e meter no segundo zero novamente mesmo antes de chegar ao fim, porque é assim tão difícil despedir-nos desta melodia que parece fazer o tempo parar.
O resto do disco desenrola-se com faixas que relembram o tal cool mais canónico do qual se falou ao início desta crítica, como a acelerada faixa-título ou a molengona “Chomsky’s Paradise”, além da revelação de outros convidados especiais que se juntam à banda, mas nunca a deixando para segundo plano: os canadianos dividem o palco com Kaytranada em “Lavender”, namoriscam (como já é do seu costume) com o hip-hop com Mike Jenkins em “Hyssop of Love” e deixam que a voz doce de Charlotte Day Wilson embale a audiência em “In Your Eyes”.
A corda continua esticada entre o antes e o agora, entre a influência e a novidade, mas nada muda: os BadBadNotGood continuam o truque de equilibrismo sem grande esforço, dando-nos mais uma vez uma banda-sonora bem cozinhada e pronta a consumir. E deixam água na boca.