Há gerações com sorte. Se hoje temos uma ementa completa de bandas, novas, diferentes e inovadoras, põe-se a questão de se alguma vez iremos ter um grupo com tanto poder para marcar uma era como os Pink Floyd. E para isso se criam as bandas tributo – como os Brit Floyd – que geralmente ficam aquém das originais. Mas quando nos esquecemos que, na verdade, não estamos no Meo Arena a ver Pink Floyd, mas sim uns britânicos mais fanáticos do que nós, percebemos o valor do que eles fazem de forma tão genuína.
No ecrã atrás dos sete músicos que ali adoptavam os seus papéis, sucediam-se as animações que nos conduziam naquela viagem de três horas com vinte minutos de intervalo. Na tela surgiu um homem que nos acompanhou durante o concerto, a passear os dedos entre a sua colecção de vinis. Escolheu o álbum The Wall, dando o mote para o primeiro tema “In The Flesh”, que logo evoluiu para o hino “Another Brick In The Wall”. De seguida, a força de “Mother” causou a reacção da audiência com o verso “Mother, should I trust the government?”. A resposta deu-se com assobios, que se transformaram em aplausos com o solo da poderosa voz de uma das três cantoras do coro.
Os movimentos sincronizavam-se com os jogos de luzes e os instrumentos, à medida que nos consumiam com o psicadelismo espacial em doses certas de canções como “Dogs” e “Shine On You Crazy Diamond”. Não se pode tirar um ponto alto daquela personificação, porque os Brit Floyd nos presentearam com uma genial evolução de temas que se iam sobrepondo em níveis diferentes, dentro de uma sonoridade inconfundível e distinta de tudo. “Coming Back To Life” fez-nos renascer, porque a fusão de vozes e acordes nos transmitiam exactamente aquilo que queriam. Já “Keep Talking” trouxe-nos a intensidade pura, que logo souberam substituir com o astral positivo e a coragem implícita de “High Hopes”. “Time” foi a confirmação daquela viagem espiritual que ali nos levava à conclusão de que o tempo que temos deve aproveitado em momentos como aquele. O clássico “Wish You Were” uniu o público num coro que repetia o refrão até à exaustão. Prosseguiu-se a viagem com um porco voador a juntar-se à interpretação de “Pigs” e do seu psicadelismo intermitente aliado ao fumo e às danças dos guitarristas escondidos entre os feixes de luz. “Comfortably Numb” trouxe a melancolia a um concerto perto do fim, num dos melhores actos do espectáculo: um dos vocalistas protagonizava o médico que dizia ao outro “I hear you’re feeling down“. “Well I can ease you pain, get you on your feet again“, e que logo respondia fielmente à música, interpretando o seu papel de confortavelmente dormente através da sua postura e voz.
Depois do encore veio a garra de “Run Like Hell” que fez a audiência esquecer os lugares sentados e levá-los em massa até às grades. Prestava-se uma ovação ao tributo mais fiel à banda que a minha geração não teve a oportunidade de ver. Mas felizmente tem a oportunidade de ter os Brit Floyd como companheiros de viagem.
(Fotos: olhos(«Ä»)zumbir)
