Um concerto didático, uma lição de como criar um espetáculo sem mácula, enérgico, empático, na mouche!
Há concertos que trazem consigo uma inevitável e curiosa fricção entre o espaço que os acolhe e a matéria de que são feitos. Ver os Franz Ferdinand no cenário do Ageas Cooljazz, em Cascais, no relvado habitualmente mais dado às cadências suaves do jazz, bossa nova e afins, parecia, à partida, um exercício de (puxemos o lustre à expressão) diplomacia estética. No entanto, só os mais incautos levarão a sério e a peito as breves linhas anteriores. Os mais atentos e assíduos sabem bem que as linhas com que se cose o Ageas Cooljazz são feitas de material para diversas costuras sonoras, e ainda bem. Mas a questão pode, mesmo assim, manter-se: como encaixar a urgência roqueira da banda escocesa num festival que prima pelo conforto e pelo charme descontraído? Essa resposta, não a vamos buscar ao Festival. A resposta veio de Alex Kapranos e companhia, e foi simples: não tentaram encaixar-se no suposto espírito mencionado, coisa que não faria grande sentido, antes preferiram convidar toda a gente para uma vibrante pista de dança. Manteve-se, naturalmente, a elegância, tão próxima do jazz, o que já é um enorme ganho. E quer se goste ou não, a música que fazem é toda ela delicada, distinta, leve e airosa como um whisky da região de Speyside, ao cair de uma tarde de verão, com gelo e soda, se não for pedir muito.
O pretexto para esta nova incursão por terras lusas prende-se com a promoção de The Human Fear, o registo editado no início do ano, que nos devolve a identidade mais musculada e ritmada do quinteto de Glasgow. Sabendo ao que vêm, e com a lição bem estudada de palcos recentes como o Benicàssim ou o Noisy Naples Fest, os músicos abriram as hostilidades com a habitual precisão cirúrgica de quem não tem tempo a perder. A urgência de temas novos surgiu perfeitamente integrada na engrenagem da banda, provando que o novo material tem estofo para ombrear com o passado mais dourado dos primeiros tempos.
Alex Kapranos continua a ser um mestre de cerimónias formidável, um dandy do indie rock que envelhece com uma classe invejável. O carisma do vocalista dita as regras e o público rapidamente percebeu que as imensas cadeiras alinhadas eram mero adereço cenográfico. Quando as guitarras angulares e o baixo imperturbável de Bob Hardy dispararam os primeiros acordes de “The Dark of the Matinée” e “No You Girls”, o contágio foi absoluto. O indie rock inteligente e dançante dos escoceses assentou que nem uma luva na noite fresca e algo ventosa de Cascais, desfazendo qualquer ceticismo inicial sobre a adequação da banda a este cartaz. O próprio Alex Kapranos mencionou ter-se assustado com o convite, imaginando-se a tocar num festival de jazz.
O alinhamento avançou sem grandes sobressaltos, mas com uma eficácia tremenda, equilibrando a nostalgia dos primeiros discos com as canções mais recentes. “Love Illumination” e “Do You Want To” funcionaram como molas propulsoras de uma energia que teimava em não baixar. Perto do final da noite guardavam-se os trunfos mais previsíveis e nem por isso menos avassaladores. A incontornável “Take Me Out” transformou o Hipódromo Manuel Possolo numa enorme e única voz, cantando um hino geracional que mantém intacta a sua frescura original. No regresso para o encore, “Audacious”, “Stand on The Horizon” (a pedido de uma garota do público, embora não estivesse no alinhamento), “Darts of Pleasure”, e a catarse habitual de “This Fire” fecharam as contas com chave de ouro, deixando a plateia exausta, plenamente rendida, mas a querer mais. Não nos importaríamos de ter ouvido “Jacqueline”, por exemplo, mas isso não aconteceu.
Os Franz Ferdinand vieram a Cascais fazer aquilo que melhor sabem: transformar o rock numa celebração coletiva e altamente sofisticada. Num festival conhecido pela sua descontração, a eletricidade escocesa provou ser o tónico perfeito para uma noite de verão memorável. De verão, na verdade, houve pouco, mas que valeu muito a pena, isso valeu. Obrigado, coolrock!
Fotografias de Gonçalo Nogueira









