Afinal, o disco-funk ainda está vivo, escondido por debaixo do chapéu de Jamiroquai.
Foram vários milhares, os que ontem resolveram conjugar o verbo jamiroquar. Tempos e modos, todos unidos para que a festa fosse imensa e bonita. Por isso, o Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, transformou-se numa autêntica, vibrante e fervilhante pista de dança ao ar livre. O tão aguardado regresso de Jamiroquai a Portugal, no palco do festival Ageas Cooljazz, não foi apenas mais um excelente concerto de verão: foi uma celebração catártica, suada, incrivelmente afetuosa e absolutamente memorável do disco-funk-espacial de Jay Kay.
Com uma lotação completamente esgotada há largos meses, a cumplicidade entre a lendária banda britânica e o público português atingiu picos de eletricidade rara, provando que o magnetismo e a energia contagiantes do seu estilo continuam tão vitais em 2026 como nos anos dourados do acid jazz.
Desde o primeiro segundo da noite, a atmosfera respirava pura euforia e expectativa. O aquecimento sofisticado do produtor português Moullinex, com um DJ set focado em pérolas da disco e do funk clássico, preparou o terreno de forma bem eficiente, deixando uma multidão de pernas perfeitamente prontas para o que se seguia. Quando Jamiroquai finalmente pisou o palco, a explosão de alegria coletiva foi instantânea e avassaladora. O arranque estonteante com “(Don’t) Give Hate a Chance” e o ritmo irresistível de “Little L” dispararam de imediato o batimento cardíaco de todos os presentes. A partir desse momento, o concerto transformou-se numa comunhão perfeita e ininterrupta. Festão a lembrar comemorações no Marquês, mas com mais gente sóbria e sem entoar cantos futebolísticos.
Jay Kay, ostentando um dos seus (pouco) exuberantes chapéus (mais tarde apareceu com outro, mais colorido), comandou a multidão com uma entrega, simpatia e generosidade contagiantes. É verdade que os seus passos de dança já não exibem a elasticidade frenética e deslizante de outrora (é a vida, meu caro, é a vida, não podemos ser Fred Astaire a vida inteira), mas a sua agilidade vocal irrepreensível, o seu timbre característico e o sorriso constante no rosto preencheram o palco de forma gigantesca. A máquina musical (leia-se banda) que o acompanha nesta digressão é, verdadeiramente, uma força da natureza inabalável. A secção rítmica, com linhas de baixo estaladas e viscerais que faziam vibrar o peito, combinada com os arranjos cirúrgicos e quentes de sopros, entregou um groove orgânico e esmagador. Clássicos eternos como “Space Cowboy” e “Travelling Without Moving” (foi aqui que exibiu o tal chapéu mais à Jamiroquai, luminoso e colorido) transportaram o público numa viagem nostálgica deliciosa, com milhares de braços no ar, enquanto o sistema de som impecável do recinto permitia saborear a riqueza de cada nota musical.
A reta final do espetáculo foi uma autêntica e inesquecível apoteose de energia, ritmo e suor. A sequência implacável e destruidora de “Canned Heat” e “Cosmic Girl” retemperou as forças, já algo esgotadas de tanto dar ao pé, transformando Cascais numa imensa massa humana em movimento síncrono e feliz, sendo fisicamente impossível ficar indiferente ou imóvel ao que ia acontecendo. O fecho triunfal com o hino geracional “Virtual Insanity” coroou a noite de forma arrebatadora, deixando a plateia em absoluto estado de êxtase. Foi um concerto generoso, incrivelmente caloroso e carregado de vibrações luminosas, onde ficou claro que a banda se divertiu tanto em palco, quanto os milhares de fãs na plateia. Jamiroquai assinou, sem qualquer margem para dúvidas, um concerto feliz e eletrizante. Jay Kay parece ser um exemplo humano de energia renovável, o que aos cinquenta e seis anos é digno de registo. Foi um daqueles espetáculos que ficam gravados na memória e guardados com carinho no coração.
Mais uma noite em grande do Ageas Cooljazz! O vento fresco da música de Jamiroquai aligeirou o calor da festa. Mesmo assim, houve uma espécie de sauna interior que se exteriorizou, e bem. Nada que não estivéssemos à espera. E por falar em espera, até à próxima, amigos altamontianos. Não faltará muito para nos encontrarmos de novo. Até lá.
Fotografias: Inês Silva
Fotografias de Inês Silva






















