A recém chegada Ovo Estrelado Records invade a Galeria Zé dos Bois para uma noite pronta a ser cozinhada entre um delicioso piano descascado e um cardápio cósmico com um molho bem kraut.
Está tudo nos seus lugares, a cerveja já estala nos tradicionais copos de esmalte da ZDB e isso quer dizer que o Aquário está pronto para receber mais uma colheita de músicos talentosos que nos brindam com o que quer que se tenha passado nas suas cabeças num passado bem próximo. Que o diga Afonso Sêrro, que nos traz a primeira oferenda da noite, já que foi em modo de isolamento completo, na Casa do Piano, em Guimarães, durante quatro dias, que moldou o seu álbum de estreia a solo chamado Piano Impromptus. Imagino-o, de facto, completamente acorrentado durante uma boa parte do dia até chegar a hora de se soltar no piano.
Pronto, talvez não seja este o seu método de eleição mas é com esta intensidade que nós o sentimos. Especialmente quando o piano físico em que toca nos parece tão frágil e revelador como as próprias músicas que Afonso apresenta. O seu corpo molda-se e dobra-se em função do piano, e ele dedilha-o por ali fora ao mesmo tempo que temos o luxo de ver todo o movimento frenético dos martelos do instrumento. E por aí vamos viajando, dentro de nós próprios mas a ver o tal piano de fora. Talvez tão exposto como o próprio Afonso, que se divide
entre aquele conjunto de teclas e um Korg que as sublinha e lhes dá uma pujança extra.
É uma dança tramada, senhoras e senhores, estar parado a ver alguém num banco, sentado, e que ainda assim nos consegue mover de uma forma assustadora. Podemos passar de um impromptu mais melancólico e que nos embala para outro que nos hipnotiza e nos congela. Quase como se atirássemos o martelar energético de um Little Richard e o observássemos a derreter com o calor até assumir uma forma entre o líquido e o sólido.
Estas foram provavelmente as palavras mais psicadélicas e amorfas que escrevi sobre um concerto. Ainda assim, talvez não sejam suficientes. É agora que me apercebo que devia só ter pedido ao Afonso que fizesse o mesmo que fez ao piano mas num teclado QWERTY, talvez assim, e só assim, conseguissem ter uma ideia do que foi lá estar.
Depois do Afonso Sêrro nos deixar KO, tudo a postos para ver (mais) estrelas?
Se não estiverem bem sintonizados, não se preocupem. Porquê? Porque Tiago Castro, ou neste caso o seu alter ego ACID ACID, tratará de o fazer. Disse alter ego porque é coisa de super-heróis, e como acho que o Tiago vai gostar dessa conotação, vou manter. Mas é um super-herói mais alternativo e subversivo, uma figura de culto que nunca desilude e que nos invade o espaço com a sua Fender Jazzmaster, as suas teclas e os seus pedais. Vai-nos apanhar onde Afonso Sêrro nos largou para nos levar até uma frequência muito específica, sob as estrelas. Isto não é só uma referência meio forçada da minha parte ao seu mais recente álbum, The Radio Under The Stars, mas também uma carta de amor genuíno a quem o Tiago é, à música que dele sai e às verdadeiras paisagens sonoras por onde nos guia. Salpica-nos com Tangerine Dream e Pink Floyd, sim. Mas, no final de contas, temos o prazer de ouvir ACID ACID no seu estado mais puro.
Se continuarmos a imagética de super-heróis, ACID ACID veio acompanhado da sua fiel sidekick – a baterista Lena Huracán (ou Helena Fagundes, se quiserem voltar ao comum mundo dos mortais). A Lena já esteve em mais bandas do que eu consigo meter num parágrafo e é a dimensão extra se quiserem tomar um ACID ACID diferente do habitual, com uma veia punk controlada a segurar os mundos maravilhosos conquistados pelo Tiago. Infelizmente, não consigo ser sério por muito tempo, e lembrei-me de que se há um sidekick e ele é baterista, então ele é um sidekick drum! Na verdade, não. Não temos de escrever isto. Até porque a Helena é muito mais do que uma bateria extra ao lado do grande e honrado ACID ACID.
Se estou um bocadinho mais solto ou até irrequieto na escrita, é porque a maior parte dos envolvidos na Ovo Estrelado são pessoas de quem eu gosto muito. Não só como promotores ou radialistas ou amigos e ótimos colegas de copos, mas como artistas inspiradores. E nada me deixa mais contente do que dizer, depois de os ouvir em disco, e de os ver na ZDB, que eles são esse tipo de músicos!
E se esta frase alguma vez for transformada em merch, aviso já que quero a minha quota parte em númerário e adiantada já que o talento de ambos é pessoal mas, felizmente, bem trasmissível e, de preferência, na sala de concertos mais próxima.
Fotografias gentilmente cedidas pela organização.








